O Brasil será um dos principais testes para o uso de inteligência artificial em eleições, afirmou Bruno Lewicki, head de políticas públicas da OpenAI na América Latina. Para o executivo, a experiência brasileira poderá orientar países que terão eleições em 2027, entre eles França e Espanha.
Lewicki disse que a empresa se preparou para o pleito de 2026 e espera que não ocorram grandes problemas relacionados ao uso de IA. Ele também ressaltou que várias regras do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) são recentes e ainda não contam com jurisprudência que indique como serão aplicadas na prática.
Medidas adotadas pela OpenAI
A preparação da OpenAI envolve três frentes. A primeira é a identificação de conteúdos gerados por inteligência artificial. Arquivos produzidos pelo ChatGPT recebem uma etiqueta digital com metadados sobre a origem e uma marca d’água invisível, capaz de indicar quando uma imagem foi criada pelo serviço.
A empresa também oferece uma ferramenta que analisa imagens e áudios para verificar se foram produzidos integralmente ou com auxílio do ChatGPT. Lewicki mencionou um caso envolvendo um suposto relatório da Polícia Federal que circulou nas redes sociais e foi identificado como material produzido com IA por uma jornalista de uma agência de checagem. A ferramenta, porém, não verifica textos.
Outra frente é o acesso à informação. Segundo Lewicki, o ChatGPT recebe 215 milhões de mensagens diárias no Brasil. Durante o período eleitoral, a OpenAI ampliou a inclusão de fontes oficiais, como o TSE, e de veículos jornalísticos entre as referências consideradas pelo sistema.
A terceira medida é o monitoramento contínuo feito pelas equipes de segurança, inteligência e integridade da empresa. A OpenAI também mantém políticas contra supressão de voto e interferência no processo eleitoral.
Regras eleitorais e funcionamento do ChatGPT
Uma das normas citadas por Lewicki proíbe que modelos de IA ranqueiem, recomendem, sugiram, favoreçam ou desfavoreçam candidatos ou partidos, de forma direta ou indireta. A OpenAI afirma ter políticas para reduzir vieses em temas políticos e eleitorais, mas considera nova a regra do TSE.
O uso do ChatGPT em campanhas eleitorais também é proibido, com exceção de determinadas atividades administrativas. A OpenAI não disponibiliza anúncios políticos ou eleitorais no serviço, inclusive no Brasil. A empresa ainda aplica medidas contra práticas que possam interferir no processo de votação.
Lewicki citou um episódio ocorrido na Índia em 2024, quando o ChatGPT teria sido usado com redes sociais e personas falsas de mídia para favorecer um partido. Segundo ele, os sistemas da OpenAI identificaram o caso, que não teve grande engajamento.
Estudos do Instituto de Tecnologia e Sociedade (ITS) e do Observatório IA nas Eleições haviam apontado situações em que chatbots, incluindo o ChatGPT, ainda ranqueavam ou recomendavam candidatos. Lewicki afirmou que esses levantamentos usaram dados coletados entre fevereiro e julho, antes do início da campanha eleitoral.
A OpenAI pediu um novo estudo ao professor Diogo Reis para avaliar mudanças recentes. De acordo com Lewicki, o modelo se recusou a ranquear ou recomendar candidatos em 32 de 33 tentativas.
Restrições para conteúdos gerados por IA
Lewicki também comentou a regra do TSE que restringe a publicação, a republicação e o impulsionamento de conteúdos gerados por IA nas 72 horas anteriores e nas 24 horas posteriores ao pleito. Na avaliação do executivo, a norma trata da circulação do material, não da geração em si.
Segundo ele, a regra prevê responsabilidades para as redes sociais e para quem disseminar o conteúdo. A OpenAI continuará usando suas camadas de defesa para indicar a procedência dos arquivos e monitorar usos que contrariem as políticas da empresa.
A empresa não contratou pessoas especificamente por causa da eleição brasileira, afirmou Lewicki. Ele disse que a tecnologia vem sendo aprimorada continuamente e defendeu a participação de governos, empresas, universidades e sociedade civil nas discussões sobre segurança de IA, cibersegurança e riscos da tecnologia.







