RIO DE JANEIRO — O roubo de celulares passou a envolver não apenas a perda do aparelho, mas também acesso a contas bancárias, compras e uso de dados pessoais. Uma pesquisa do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), publicada em maio, estimou que cerca de 14 milhões de pessoas foram vítimas desse crime no Brasil nos 12 meses anteriores.
Apesar disso, o relatório anual do Fórum registrou 830 mil celulares roubados em 2025, com base em dados oficiais. O documento afirma que o crime se tornou um símbolo da crise de segurança em cidades brasileiras como o Rio de Janeiro antes das eleições de 4 de outubro.
Eduardo Metzker, de 29 anos, foi abordado enquanto pilotava uma moto no Rio de Janeiro. Dois motociclistas o cercaram, e um deles apontou uma arma para sua cabeça e exigiu o celular e a senha. Nas horas seguintes, os criminosos retiraram até 80 mil reais de seus aplicativos bancários, principalmente no crédito, enquanto ele tentava bloquear as contas.
“Como é cartão de crédito, nem era um dinheiro meu. Então, fiquei devendo”, disse Metzker.
Depois do assalto, o programador passou a manter um aparelho para usar na rua e outro em casa, onde ficam os aplicativos bancários. Segundo o FBSP, cerca de 65 milhões de brasileiros adotaram estratégia semelhante, conhecida como o celular do ladrão. Para Leonardo Silva, coordenador da área de Estado e Crime Organizado do Fórum, o foco das quadrilhas deixou de ser apenas o aparelho e passou a incluir os dados armazenados nele.
Transferências e compras
Caroline Lo Bianco, dentista de 36 anos, teve o celular arrancado das mãos pela janela de um Uber quando estava grávida de sete meses. Depois de bloquear os cartões, ela ainda identificou uma transferência de quase 700 dólares, equivalente a 3.650 reais, de uma conta em um banco digital. Os criminosos também compraram pela internet um console de videogame de 1.000 dólares, ou 5.213 reais. A compra foi bloqueada antes da entrega.
O grupo ainda enviou cerveja, carne e produtos do McDonald’s para endereços diferentes no Rio de Janeiro. Lo Bianco afirmou que vive em estado de alerta na cidade.
Às vésperas das eleições presidenciais deste domingo, Luiz Inácio Lula da Silva, do PT, e o senador Flávio Bolsonaro, do PL-RJ, prometeram medidas para combater o crime. Bolsonaro defendeu quadruplicar as penas de prisão, enquanto Lula apresentou como meta o roubo de telefone zero.
Cadeia criminosa
Luiz Fernando Bugiga, promotor do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), afirmou que uma operação recente em São Paulo identificou quatro núcleos envolvidos no esquema. Um grupo rouba os celulares e os repassa a criminosos especializados em transferências bancárias e subtração de dados. Outro modifica tecnicamente os aparelhos para que voltem ao mercado, enquanto o último vende peças e dispositivos.
“O roubo do celular, ao contrário de algumas outras formas de roubo cotidiana, como aliança, ouro, tem várias frentes de prejuízo para a vítima e, portanto, de lucro para o criminoso”, disse Bugiga.
Joel da Silva, de 42 anos, porteiro em Ipanema, contou que ficou um mês sem celular depois de ser assaltado à mão armada. Ele comprou outro aparelho em quatro prestações e relatou ter presenciado quatro roubos de celulares no edifício onde trabalha há sete meses.








