A perda da mãe não se limita ao momento da morte. Ela pode reaparecer em datas importantes, em notícias que não têm para quem ser contadas e em gestos repetidos ao longo dos anos. Essa permanência do luto é resumida por Valter Hugo Mãe em uma frase do romance “O Filho de Mil Homens”, publicado em 2011: “Quem perdeu a mãe perde para sempre e nunca mais para de perder”.
Valter Hugo Mãe é um escritor português nascido em Angola. No trecho, a primeira parte da frase aponta para a definitividade da morte. A segunda descreve a repetição da ausência, que pode surgir em diferentes momentos da vida, e não apenas no período logo após a perda.
A perda e os novos vínculos
O romance acompanha um pescador que convive com a tristeza de não ter tido filho e um menino cuja mãe morreu no parto. Os dois constroem uma família sem que exista entre eles um vínculo de nascimento. Em outro momento, o pescador afirma ao garoto que todos nascemos filhos de mil pais e de mais mil mães. O título da obra vem dessa ideia.
Assim, o livro não trata apenas da continuidade da perda. Também apresenta a possibilidade de reconhecer novas pessoas como parte da própria vida. A ausência permanece, mas os vínculos podem ser reconstruídos em outro registro.
A pesquisa sobre o luto abandonou há décadas o modelo de estágios baseado em uma aceitação final. A compreensão apresentada no texto é que o luto oscila entre momentos de enfrentamento e pausa. A relação com quem morreu pode continuar por meio de memórias, objetos e gestos repetidos.
O luto não é uma doença nem exige tratamento por definição. Quando incapacita a pessoa e a vida não retoma nenhum curso depois de muito tempo, o acompanhamento de um profissional de saúde mental pode fazer diferença.







