Piracicaba, Quinta-feira, 1 de outubro de 2026
Brasil

Entrevista questiona atuação de André Mendonça e debate uso político do Direito

Cleide Martins relaciona lawfare, Lava Jato, soberania nacional e disputas institucionais em análise sobre o STF.

O lavajatismo do ministro André Mendonça

A atuação do ministro André Mendonça no Supremo Tribunal Federal (STF) foi analisada pela advogada, pedagoga e diretora-executiva da Rede Lawfare Nunca Mais, Cleide Martins, em entrevista ao JTT. O debate abordou o conceito de lawfare, a competência para julgar processos, a soberania nacional e a influência política sobre instituições brasileiras.

Lawfare é definido por Cleide como o uso estratégico do Direito para alcançar objetivos políticos. Na avaliação da entrevistada, a discussão não deve se limitar ao conteúdo das decisões judiciais. Também envolve a escolha do foro, a autoridade responsável pelo processo e o respeito ao princípio do juiz natural.

O tema ganhou destaque após André Mendonça assumir a condução de um inquérito envolvendo Fábio Luiz Lula da Silva. Cleide questionou a competência do ministro para atuar no caso e afirmou que o direito a um julgamento justo deve valer para qualquer cidadão, independentemente de sua relação familiar ou política.

Relação com a Lava Jato

A entrevistada associou o debate à experiência da Operação Lava Jato. Segundo sua interpretação, métodos usados durante a operação não teriam desaparecido, mas passado a assumir outras formas. Cleide citou estudos acadêmicos sobre a atuação dos Estados Unidos durante a Lava Jato e uma pesquisa sobre a relação entre a cobertura da operação pela imprensa estadunidense e interesses geopolíticos daquele país.

Ela também mencionou o Projeto Pontes, realizado em 2009, como parte de sua análise sobre a aproximação entre instituições brasileiras e estadunidenses antes da operação. Para Cleide, a experiência de Curitiba mostrou como o combate à corrupção poderia ser incorporado a uma estratégia política mais ampla.

Na avaliação apresentada durante a entrevista, os efeitos desse processo atingiram empresas, empregos e setores da economia brasileira. Por isso, o lawfare deveria ser compreendido como um fenômeno que reúne Direito, mídia, economia e política.

Estado, redes internacionais e comunicação

Cleide também falou sobre a trajetória política e ideológica de André Mendonça. Ela citou a participação do ministro em atividades ligadas ao Acton Institute, organização estadunidense de orientação conservadora cristã, e relacionou essa formação a uma concepção de Estado que, segundo ela, defenderia uma redução radical da presença estatal.

“Essa coisa da redução do Estado, da aniquilação do Estado, é a aniquilação da cidadania em si mesma”, afirmou Cleide. A crítica envolve áreas como saúde, educação, previdência e proteção trabalhista.

A advogada ainda apresentou sua interpretação sobre a presença dos Estados Unidos na política brasileira e latino-americana. Mencionou redes de think tanks, organizações políticas, institutos e grupos de comunicação, além da Atlas Network, à qual atribuiu a articulação de centenas de organizações em diferentes países.

Outro ponto abordado foi o papel das redes digitais e das campanhas de desinformação nas disputas políticas. Cleide citou Fernando Cerimedo e defendeu que o debate sobre lawfare seja traduzido para uma linguagem compreensível à população, já que suas consequências poderiam alcançar eleições, políticas econômicas, direitos sociais e a soberania nacional.

Disputa institucional

Na leitura de Cleide, a crise envolvendo o STF integra uma disputa política mais ampla. Ela relacionou os ataques às instituições a um processo iniciado em diferentes momentos da política brasileira desde o impeachment da presidenta Dilma Rousseff.

A entrevistada citou Ucrânia, Honduras, Bolívia, Venezuela e Argentina como países que, em sua interpretação, apresentam elementos semelhantes de desestabilização política e uso de instrumentos jurídicos, midiáticos e comunicacionais.

Ao final, Cleide defendeu que o Estado brasileiro crie mecanismos para identificar e neutralizar práticas de lawfare. A Rede Lawfare Nunca Mais, segundo ela, trabalha para incluir o tema em programas de governo e sustenta que a prevenção deve ocorrer antes que os efeitos dessas práticas se consolidem.

A questão central apresentada na entrevista é o papel do sistema de Justiça em uma democracia: quem pode julgar, em qual foro, sob quais regras e com quais limites institucionais. Para Cleide, o chamado lavajatismo pode reaparecer não pela repetição literal da Lava Jato, mas pelo uso do Direito como instrumento de uma disputa política mais ampla.

Texto produzido pela Redação Aprende em Foco com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

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