Uma mensagem sem resposta, um cumprimento que não acontece ou um exame marcado podem levar alguém a imaginar o pior. Para Epicteto, filósofo estoico, o sofrimento não surge apenas do acontecimento, mas também do julgamento feito sobre ele.
“Não são as coisas que nos perturbam, mas a opinião que temos sobre elas”, escreveu Epicteto. A frase aparece no capítulo 5 do Encheirídion, conhecido como Manual, obra que reúne ensinamentos anotados por seu aluno Arriano.
O sentido da reflexão
Epicteto nasceu por volta do ano 50, em Hierápolis, na atual Turquia, e viveu parte da vida como escravo em Roma. Depois de ser liberto, tornou-se professor e fundou uma escola em Nicópolis, na Grécia. Ele não deixou textos escritos; suas aulas foram registradas por Arriano.
A palavra grega traduzida como “opiniões” ou “juízos” é dógmata. Nesse contexto, ela se refere à avaliação que a mente faz de um fato: algo pode ser considerado bom ou ruim, ameaçador ou neutro. Assim, o que assusta não seria a morte em si, mas o julgamento de que ela é terrível.
A orientação de Epicteto inclui examinar os próprios julgamentos diante de uma perturbação, em vez de culpar outras pessoas.
Influência na psicologia
No século 20, o psicólogo norte-americano Albert Ellis citou Epicteto entre as inspirações da Terapia Racional-Emotiva Comportamental. Em Reason and Emotion in Psychotherapy, de 1962, Ellis defendeu que as emoções dependem em grande parte das crenças sobre os fatos.
O psiquiatra Aaron Beck estruturou a Terapia Cognitivo-Comportamental, a TCC. No livro Cognitive Therapy of Depression, de 1979, Beck e colaboradores apontaram os filósofos estoicos como origem filosófica da abordagem.
Na prática clínica, a TCC considera que existe uma interpretação entre o fato e a emoção. Algumas interpretações podem exagerar ou deformar a realidade. Entre os exemplos estão a catastrofização, que imagina o pior desfecho; a leitura mental, que presume o que outra pessoa pensa sem evidências; a personalização, que atribui tudo à própria culpa; e o pensamento de tudo ou nada, que reduz a situação a sucesso total ou fracasso total.
A frase não nega problemas concretos, como uma demissão, uma doença ou uma perda, nem propõe simplesmente pensar positivo. A separação entre fato e julgamento pode reduzir o sofrimento acrescentado por previsões e interpretações que não se confirmam. Em casos de ansiedade ou tristeza persistentes, a orientação é buscar acompanhamento com psicólogo ou psiquiatra.







