A tentativa de controlar diretamente a felicidade pode produzir o efeito oposto, segundo Viktor Frankl. Para o psiquiatra, alguns resultados aparecem quando a pessoa se dedica a uma causa ou a outra pessoa, e não quando transforma esses resultados em alvos isolados.
No prefácio à edição de 1992 de Em Busca de Sentido, Frankl afirma que sucesso e felicidade precisam surgir como consequência não planejada. Ele relaciona essa ideia à dedicação a algo maior que o próprio indivíduo e à entrega a outra pessoa. Em uma orientação dada a alunos, resumiu: “Não mirem o sucesso, porque quanto mais se mira nele e se faz dele um alvo, mais se erra.”
Quando o esforço atrapalha
A explicação está ligada à hiperintenção, conceito da logoterapia, abordagem criada por Frankl. Trata-se da concentração excessiva em um objetivo, capaz de impedir sua realização. A hiper-reflexão, por sua vez, consiste em observar demais o próprio desempenho e pode produzir efeito semelhante.
A insônia é um exemplo apresentado por Frankl. A pessoa teme não dormir, aumenta a ansiedade e acaba mantendo-se acordada justamente por tentar controlar o sono. Como resposta, a intenção paradoxal propõe que ela tente permanecer acordada, em vez de se obrigar a dormir.
Frankl resume a base desse mecanismo em duas ideias: o medo pode provocar aquilo que a pessoa teme, enquanto a intenção exagerada pode bloquear o que ela deseja.
Uma razão para ser feliz
No posfácio do livro, baseado em uma conferência realizada em um congresso de logoterapia na Alemanha, Frankl comenta a forma como a cultura americana costuma ordenar que as pessoas sejam felizes. Para ele, a felicidade depende de uma razão concreta; encontrada essa razão, o estado de felicidade aparece como consequência.
A comparação usada pelo psiquiatra é direta: mandar alguém rir não é suficiente. Para que o riso aconteça, é preciso oferecer um motivo, como uma piada. Da mesma forma, a pessoa não deveria tratar a felicidade como o objetivo principal, mas buscar um sentido.
O livro como exemplo
A trajetória de Em Busca de Sentido é apresentada pelo próprio Frankl como uma demonstração da ideia. O livro foi escrito para publicação anônima, sem a intenção inicial de ser assinado pelo autor. Depois, tornou-se um dos títulos de psicologia mais vendidos da história e foi traduzido para dezenas de idiomas.
Na interpretação de Frankl, o sucesso apareceu justamente porque não era a finalidade perseguida.
O sentido da proposta
A frase não rejeita metas externas, como aprender uma língua, concluir um projeto ou construir algo. Também não defende passividade. Frankl orientava os alunos a escutar o que a consciência indicava e realizar a tarefa da melhor maneira possível.
A proposta tampouco é contra a ambição. Dedicar-se a uma causa maior pode exigir mais esforço. Técnicas como intenção paradoxal e desreflexão são procedimentos clínicos aplicados por profissionais em situações específicas; não substituem tratamento para insônia persistente ou ansiedade.
Viktor Emil Frankl nasceu em 1905, em Viena, e morreu em 1997. Neurologista e psiquiatra, criou a logoterapia, que coloca a busca de sentido como motivação central do ser humano. A teoria, esboçada antes da guerra, foi relacionada por ele à experiência como prisioneiro em campos de concentração entre 1942 e 1945.
A reflexão de Frankl também alcança a cultura contemporânea. Nos anos 1980, ele já descrevia a pressão para buscar felicidade; hoje, o texto associa essa busca a metas, métricas, rotinas e aplicativos de acompanhamento. Para o psiquiatra, quanto mais direta e deliberada é a perseguição de certos estados, maior pode ser o bloqueio à sua realização.







