SÃO PAULO — A Operação Crédito Oculto investiga um circuito financeiro que teria usado o Banco Genial para dar aparência de empréstimo regular a recursos de empresas ligadas ao PCC (Primeiro Comando da Capital). A ação é uma nova fase da Carbono Oculto, que apura a infiltração do crime organizado na economia formal.
Nesta quinta-feira (24), foram cumpridos mandados de busca e apreensão contra 27 alvos em sete estados. A estrutura investigada teria sido montada por Mohamad Hussein Mourad, conhecido como “Primo”, e Roberto Augusto Leme da Silva, o “Beto Louco”.
Participaram da operação agentes da Receita Federal, do Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado) do Ministério Público de São Paulo, da Secretaria da Fazenda e da Procuradoria-Geral do Estado. Também atuaram a Polícia Militar, a Polícia Civil e Gaecos de Espírito Santo, Goiás, Mato Grosso, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Santa Catarina.
Como funcionava o circuito
De acordo com as investigações, a Usina Itajobi, administrada por Primo e Beto Louco, era a única cotista do fundo Radford. A empresa transferiu R$ 100 milhões ao fundo, que aplicou o valor em CDBs (Certificados de Depósito Bancário) vinculados e emitidos pelo Genial.
Na sequência, o banco concedeu empréstimos por meio de CCBs (Cédulas de Crédito Bancário) às holdings Berna e Branson. As duas empresas, apontadas como de fachada e ligadas aos mesmos investigados, usaram os recursos para comprar ativos, incluindo a empresa controladora da Terrana, uma distribuidora de combustíveis.
O empréstimo, porém, é tratado pelos investigadores como um artifício. Embora o Genial aparecesse formalmente como credor das holdings, o dinheiro usado nas operações havia sido captado pelo banco junto ao fundo Radford. O Ministério Público descreveu o arranjo como uma relação circular: o fundo financiou o banco, e o banco repassou o mesmo valor às empresas.
A Usina Itajobi enviou os R$ 100 milhões ao Radford entre 24 e 26 de julho de 2024, em quatro operações. Antes de cada depósito, valores iguais entraram na conta da usina vindos de empresas ligadas a Primo e Beto Louco: a distribuidora Duvale, a SM Serviços e a Aster Petróleo. As transferências passaram por contas-bolsão da BK Instituição de Pagamento.
Em dezembro, a Entre Investimentos, do empresário Antonio Carlos Freixo Júnior, conhecido como “Mineiro”, enviou outros R$ 20 milhões à conta da usina. O valor foi integralmente repassado ao Radford. A Justiça classificou a conta da Usina Itajobi como uma conta de passagem, enquanto o Gaeco apontou que o fundo funcionava como uma camada adicional entre o dinheiro e sua utilização.
Empresas e executivos citados
Berna e Branson foram abertas um mês antes da primeira fase da Carbono Oculto, em setembro de 2024. Cada uma tinha capital social de R$ 1.000 e estava registrada em nome de Paulo Narcélio Simões do Amaral, indicado na investigação como interposta pessoa para ocultar os compradores da distribuidora.
A decisão judicial afirma que o compliance do Genial identificou uma responsabilização anterior de Freixo Júnior e da Entre Investimentos pela CVM (Comissão de Valores Mobiliários). Mesmo assim, a instituição teria prosseguido com a operação.
Mensagens extraídas do celular de Paulo Narcélio mostram que ele tratou do negócio, entre maio de 2024 e agosto de 2025, com Humberto, André e Bruno Tupinambá. Os três são apontados como responsáveis pela estrutura financeira da operação.
Humberto Tupinambá Neto, sócio e diretor do Banco Genial, é apontado na investigação como responsável por estruturar o arranjo financeiro. André Tupinambá, sócio-administrador da AT Assessoria, teria intermediado a compra da distribuidora. A empresa recebeu R$ 469,3 mil da Aster.
Bruno Tupinambá, sócio-administrador da BT Assessoria, teria prestado suporte administrativo, operacional e de compliance à Terrana depois da transação. A empresa dele também recebeu R$ 469,3 mil da Aster.
Outro ponto analisado foi a saída do Genial da administração do Radford. O banco liquidou os CDBs vinculados e transferiu ao próprio fundo os créditos das CCBs concedidas às holdings. Para os investigadores, a alteração retirou a instituição do circuito e reforçou a hipótese de que a estrutura tinha finalidade dissimulatória.
O Banco Genial informou que Humberto Tupinambá foi destituído da empresa em maio de 2026. A instituição também declarou que forneceu informações ao Gaeco e adotou medidas adicionais de governança e controle, incluindo uma inspetoria interna e a revisão da governança das operações de crédito. A defesa de Antonio Carlos Freixo Júnior não se manifestou até a publicação.








