Planilhas usadas na prestação de contas do programa WiFi Livre, da Prefeitura de São Paulo, apresentam erros de localização, informações contraditórias e datas de instalação posteriores ao período de funcionamento indicado. Os documentos foram produzidos pelo Instituto Conhecer Brasil (ICB), entidade que recebeu mais de R$ 100 milhões para executar o serviço.
Os problemas dificultam a verificação de onde os equipamentos foram instalados, quando entraram em operação e qual é a cobertura dos pontos. O programa é supervisionado pela Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia (SMIT) e atende regiões da periferia da capital paulista.
As inconsistências aparecem em duas planilhas. A primeira, encaminhada pelo ICB em 19 de janeiro de 2025, relaciona 2.673 pontos supostamente instalados entre agosto de 2024 e janeiro de 2025. A segunda reúne 2.929 registros e estava entre documentos apreendidos em 10 de junho de 2026. Os arquivos têm 2.673 pontos em comum, mas as datas de instalação foram alteradas para 2026.
Um dos registros exemplifica o problema. O ponto da rua Emílio Castro, no Jardim Damasceno, aparece na primeira base como instalado em dezembro de 2024 e com o link em funcionamento. Na outra planilha, a instalação é indicada para dezembro de 2026, embora o equipamento continue registrado como ativo.
Pontos aparecem fora de São Paulo
A análise das coordenadas identificou 37 equipamentos localizados fora do município de São Paulo, apesar de os endereços indicarem locais na capital. Também foram encontrados erros nos CEPs de 17 pontos.
Em um caso, o endereço aponta para a rua Angelo Bini, no Conjunto Residencial José Bonifácio, em Itaquera. As coordenadas, porém, levam à Ilha de Paquetá, no município do Rio de Janeiro. Outro registro, associado ao Jardim das Oliveiras, no Itaim Paulista, tem erro no nome da rua e coordenadas que indicam Jundiaí.
Há ainda um ponto cujo endereço traz “Uruquaiana” no lugar de “Uruguaiana”. Embora o CEP indique São Paulo, as coordenadas apontam para Sorocaba. As planilhas também apresentam grafias diferentes para uma mesma via e registros sem número ou referência precisa.
Entre os problemas relacionados aos códigos postais, 15 pontos têm CEPs de Ferraz de Vasconcelos e um tem código de Cotia. Outro equipamento, registrado em Cidade Tiradentes, aparece com o CEP 00941-465, que não corresponde a um código postal válido no país.
Contrato e respostas
O acordo foi assinado em junho de 2024, durante a gestão do prefeito Ricardo Nunes, e teve duas prorrogações: uma em junho de 2025 e outra em janeiro de 2026. Com os aditamentos, o valor total passou de R$ 157 milhões.
Apesar das inconsistências, um parecer da SMIT emitido em 16 de dezembro recomendou a extensão do contrato por mais 12 meses e classificou como satisfatória a qualidade da parceria. O documento afirmou que a execução havia sido “rigorosamente verificada” e estava em conformidade com os indicadores previstos.
A prefeitura disse que os pontos são fiscalizados desde a instalação por monitoramento técnico e georreferenciado e que a execução foi comprovada por documentos e fotografias. Também afirmou que inconsistências cadastrais são comunicadas à instituição responsável. Depois, declarou que “tais inconsistências pontuais não comprometem em nada a lisura e a correição da fiscalização do Termo de Colaboração”.
O ICB afirmou que as planilhas correspondem a momentos diferentes de atualização da base operacional e que deve ser considerada a versão mais recente enviada à SMIT. A entidade também disse utilizar o georreferenciamento para acompanhar os pontos.
O contrato é alvo de investigações da Polícia Federal e da Polícia Civil de São Paulo. Em um relatório, a Polícia Federal apontou indícios de uma triangulação financeira de ao menos R$ 6,1 milhões entre empresas e entidades ligadas à empresária Karina Ferreira da Gama. A Polícia Civil afirmou ter identificado “consistentes suspeitas” de desvio de recursos do programa para financiar o filme “Dark Horse”, sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro.








