Uma rede internacional de perfis, empresas de mídia e plataformas digitais divulgou conteúdo pago relacionado às chances de Flávio Bolsonaro (PL) na eleição brasileira. Entre os envolvidos estão o Visegrád24, a UHN Plus e a Polymarket, plataforma de mercados de previsão que mantém parceria oficial com o X.
Em 20 de setembro, o Visegrád24 publicou para mais de 1 milhão de seguidores no X que a chance de Flávio vencer a eleição estava aumentando na Polymarket. A postagem trazia uma imagem do senador ao lado do presidente argentino, Javier Milei, e recebeu a identificação de “parceria paga”, posteriormente retirada.
O mesmo perfil havia feito publicação semelhante em 30 de abril, afirmando que Flávio aparecia à frente de Lula nas cotações: 43% contra 38%. Em fevereiro, o Visegrád24 também entrevistou o senador. Na conversa, Flávio disse que o Brasil tinha “um presidente que apoia terroristas”.
Como funciona a conexão
A Polymarket permite que usuários negociem contratos baseados em possíveis resultados de eleições, esportes e outros acontecimentos. Os percentuais exibidos não correspondem a uma pesquisa eleitoral. Quando o site indicou 58% para Flávio, o número representava o preço alcançado pelos contratos negociados naquele mercado.
O acesso à plataforma foi bloqueado no Brasil em abril, porque a empresa não tinha autorização para operar no país. Desde junho de 2025, porém, a Polymarket é parceira oficial do X para mercados de previsão.
Em agosto de 2025, a plataforma recebeu investimento do fundo 1789 Capital, do qual Donald Trump Jr. é sócio. Ele também passou a integrar o conselho consultivo da Polymarket.
Outra ponta da rede é Javier Negre, empresário espanhol que dirige o La Derecha Diario e ocupa a vice-presidência da UHN Plus Media Network. A UHN publicou ao menos nove posts relacionando Flávio às cotações da Polymarket desde 30 de março. Uma dessas publicações, de 14 de abril, foi identificada como parceria paga.
Negre também esteve ligado ao lançamento da edição em espanhol do Visegrád24, em parceria com a EDATV e o La Derecha Diario. A UHN afirmou que essas estruturas formavam uma aliança de mídia com o Visegrád24 Español, embora os documentos não comprovem sociedade ou caixa comum com a conta principal do Visegrád24.
Ligação com Fernando Cerimedo
A cadeia inclui Fernando Cerimedo, marqueteiro argentino que trabalhou em campanhas na América Latina e foi sócio de Negre no La Derecha Diario. Em fevereiro, durante uma gala no clube de Donald Trump na Flórida, Cerimedo recebeu o prêmio de “consultor político do ano”, entregue por Eduardo Bolsonaro.
Na ocasião, Eduardo afirmou que venceria as eleições de outubro com o irmão Flávio. Cerimedo agradeceu a Brad Parscale, ex-chefe da campanha de Donald Trump e criador da plataforma Campaign Nucleus, pela tecnologia utilizada em seu trabalho.
Cerimedo ficou conhecido no Brasil após divulgar, em novembro de 2022, alegações sem provas de fraude na eleição presidencial. Em 2024, foi indiciado pela Polícia Federal no núcleo de desinformação da investigação sobre a tentativa de golpe, mas não foi incluído posteriormente na denúncia apresentada pela Procuradoria-Geral da República.
Em 18 de agosto, Cerimedo foi detido na Bolívia e teve a prisão preventiva decretada. O Ministério Público boliviano o acusa de ser mandante de uma tentativa de feminicídio contra a ex-companheira, Nadia Beller. A defesa nega as acusações.
O publicitário também nega ter vínculo com a campanha de Flávio. Segundo ele, a relação com a UHN Plus, o Visegrád24 e a Polymarket é responsabilidade exclusiva de Javier Negre.
O que os documentos mostram
Os registros confirmam que o Visegrád24 entrevistou Flávio e publicou posts pagos sobre suas cotações na Polymarket. A UHN Plus também divulgou conteúdo pago relacionado ao senador. Além disso, há conexões públicas entre Negre, Cerimedo e a tecnologia de Brad Parscale.
Esses documentos, porém, não comprovam que mídia, plataforma de previsão e tecnologia eleitoral façam parte de uma única operação coordenada para beneficiar Flávio. Também não foi localizado contrato entre essa rede e a candidatura.
Ainda não está esclarecido quem financiou especificamente as publicações do Visegrád24, quem escolheu Flávio como tema dos posts, quem intermediou a entrevista de fevereiro ou se alguma estrutura estrangeira mantém relação com fornecedores da campanha brasileira.
Regras eleitorais
A legislação eleitoral permite propaganda paga na internet apenas nas hipóteses de impulsionamento previstas em lei e contratadas por agentes autorizados. As regras do Tribunal Superior Eleitoral vigentes em 2026 também proíbem oferecer vantagem econômica para que pessoas ou empresas publiquem conteúdo político-eleitoral em seus próprios canais.
O X informou ao Tribunal Superior Eleitoral que manteria proibidos no Brasil anúncios políticos e de campanha. A campanha de Flávio disse não ter conhecimento dos anúncios e negou relação formal com Cerimedo. A defesa do publicitário também rejeita as acusações relacionadas ao processo na Bolívia.







