A frase atribuída a Arthur Schopenhauer sobre a solidão costuma ser usada como elogio à distância dos outros. No entanto, o trecho completo apresenta o isolamento como uma escolha dolorosa entre duas alternativas ruins.
A formulação aparece em Parerga e Paralipomena, de 1851: “a solidão é o quinhão de todos os espíritos eminentes, que por vezes a lamentarão, mas sempre a escolherão como o menor de dois males”. A parte final é frequentemente retirada das citações, embora seja justamente ela que define o sentido do argumento.
Solidão como menor de dois males
Sem a segunda metade, a frase pode parecer uma defesa da solidão como sinal de inteligência ou superioridade. Na versão completa, Schopenhauer afirma que esses espíritos lamentam o isolamento, mas ainda assim o preferem à alternativa que consideram pior: a companhia medíocre.
Assim, o recolhimento não aparece como uma receita de bem-estar. Ele é descrito como o que restou diante de outra possibilidade considerada mais desagradável. A diferença também aparece na tradução do alemão: a palavra Los significa quinhão, lote ou aquilo que cabe a alguém por destino. “Sorte” pode sugerir boa fortuna, enquanto “quinhão” e “destino” se aproximam da ideia de uma carga recebida sem escolha.
Arthur Schopenhauer nasceu em 1788, em Danzig, então parte da Prússia. Publicou O Mundo como Vontade e Representação em 1818 e passou décadas praticamente ignorado, enquanto Hegel ganhava destaque. Os dois disputaram alunos, e Schopenhauer perdeu.
O reconhecimento veio mais tarde, com Parerga e Paralipomena, coletânea de ensaios de 1851 escrita quando o filósofo tinha 63 anos. A obra também reúne algumas das frases mais citadas de Schopenhauer. Sua filosofia considera que a existência é movida por uma vontade cega, responsável por um sofrimento contínuo. Nesse contexto, as observações sobre a solidão não funcionam como conselhos de bem-estar.
A relação com Leandro Karnal
Leandro Karnal parte de outra passagem de Schopenhauer em O dilema do porco-espinho: como encarar a solidão, publicado pela Planeta em 2018. O título se refere à parábola dos porcos-espinhos que se aproximam para se aquecer e se afastam quando se ferem.
Uma resenha acadêmica publicada na Revista Sem Aspas em 2020 registra que o livro se estrutura a partir dessa metáfora. Karnal apresenta o dilema entre conviver no calor dos grupos, com o risco de sofrer ferimentos na relação com os outros, e viver isoladamente no frio da solidão. A abordagem não contesta Schopenhauer; desenvolve a mesma questão.
A frase completa, portanto, não autoriza transformar o isolamento prolongado em prova de excepcionalidade. Também é necessário distinguir estar só por escolha de estar só sem escolha. O primeiro caso envolve preferência; o segundo é uma situação involuntária. Tratar os dois como equivalentes altera o sentido do trecho.
Schopenhauer passou boa parte da vida em conflito com colegas, sem alunos, e preferia a companhia dos próprios cães. Sua obra é uma referência para discutir a solidão, mas sua trajetória não precisa ser tomada como modelo.
A versão reduzida continua atraente porque converte uma dificuldade de convivência em sinal de superioridade intelectual. Já o texto completo elimina esse consolo e apresenta o isolamento como uma decisão resignada diante do menor de dois males.







