Mais da metade das escolas brasileiras de ensino médio já permite o uso de inteligência artificial generativa pelos estudantes. Apenas 22% dessas instituições, porém, têm diretrizes formalizadas de boas práticas para orientar a adoção, de acordo com a pesquisa TIC Educação 2025, do Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br).
O levantamento também mostra que 8 em cada 10 escolas discutem formalmente os efeitos do uso de telas e tecnologias sobre a saúde mental e o comportamento dos alunos.
Tatiana Laganá, pesquisadora do Transformative Learning Technologies Lab (TLTL), da Universidade de Columbia, nos Estados Unidos, afirma que a combinação entre boa infraestrutura tecnológica e falta de regras pode levar a uma adoção acelerada e sem organização. Para ela, o letramento digital também deve ser trabalhado sem o uso direto de máquinas.
O principal risco, segundo a pesquisadora, é o descarregamento cognitivo: quando o estudante entrega à inteligência artificial toda a operação intelectual e deixa de exercer o pensamento crítico e a autoria.
Experiências nas escolas
No Colégio Magno/Mágico de Oz, em São Paulo, o uso orientado de ferramentas como o NotebookLM é adotado nos estudos em casa. Maria Fernanda Simão, aluna do 7º ano, afirma que a ferramenta ajuda a tirar dúvidas, mas exige cuidado para evitar informações inventadas.
A colega Laura Queiroz prefere não usar chatbots para preservar o processo de aprendizagem. Ela afirma que receber respostas prontas pode impedir a compreensão dos conteúdos e relata que o uso da inteligência artificial como atalho para tarefas pode gerar dependência.
Nas aulas de espanhol do colégio, a professora Gisele Costa incorporou manuais de gramática e regras de conjugação às provas de consulta. A proposta é avaliar a análise crítica das fontes e a justificativa do raciocínio, em vez de cobrar apenas a memorização.
No Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo, o tema é discutido nos cursos técnicos e regulares. O professor Lucas Chao diz que a instituição usa comandos guiados para ensinar os estudantes a identificar vieses algorítmicos em textos e imagens.
Já o Centro Educacional Pioneiro, na Vila Clementino, afastou os alunos do ensino fundamental de ferramentas de inteligência artificial que não explicam como chegam às respostas. A escola criou um ambiente protegido, integrado via API, para que os estudantes desenvolvam roteiros de jogos digitais com base em leituras literárias. As perguntas feitas durante o processo ficam disponíveis para os professores.
Proteção de dados e novas diretrizes
Tatiana Laganá também alerta para o envio de dados sensíveis e imagens de menores de idade a servidores no exterior. Na avaliação dela, essa prática pode violar a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) e o ECA Digital.
Em 1º de setembro de 2026, o Conselho Nacional de Educação (CNE) homologou novas diretrizes curriculares para o uso de inteligência artificial na educação básica. O documento estabelece uma matriz de riscos e proíbe o uso autônomo e sem mediação por crianças da educação infantil e dos anos iniciais do ensino fundamental.
As normas também vetam a correção automatizada de redações e impõem restrições ao perfilamento comportamental de estudantes. Para Laganá, regras governamentais firmes são necessárias para evitar o aumento da desigualdade tecnológica entre instituições públicas e particulares.







