O estúdio brasileiro Árvore pretende lançar Fábula Rasa para Meta Quest em 2026, ainda sem data definida. A experiência narrativa em realidade virtual foi reconhecida com o prêmio de melhor XR no SXSW 2026 e também pode ganhar versões que não dependam de realidade virtual.
A proposta do jogo é fazer da conversa a principal mecânica. O jogador está preso em uma gaiola, acusado de um crime, e precisa falar com moradores de um vilarejo para tentar evitar a própria morte antes da decisão do rei. Uma sessão dura aproximadamente 30 minutos.
Os personagens respondem com auxílio de inteligência artificial generativa. O sistema considera o que foi dito, os objetos carregados pelo jogador e o histórico das interações daquela partida. Com isso, as sessões podem tomar caminhos diferentes.
A estrutura combina a engine Unity com modelos de linguagem. A Unity administra o estado do mundo, enquanto os dados da partida são convertidos em texto e enviados ao modelo. Uma IA diretora também acompanha o arco narrativo. Se uma personagem cria uma poção com determinado efeito, por exemplo, essa informação pode influenciar as interações seguintes.
A Árvore manteve a produção artística inteiramente humana. Para Ricardo Justus, cofundador do estúdio, a inteligência artificial deve ampliar as possibilidades de criação. “IA não substitui humanos: potencializa criadores”, afirmou.
Improviso como parte do desenvolvimento
Durante a produção, a equipe percebeu que a tecnologia funcionava, mas a experiência ainda não funcionava como jogo. A mudança veio após um workshop de teatro de improviso, que levou ao projeto o princípio “yes, and”: aceitar a situação apresentada e acrescentar algo a ela.
O tom humorístico foi adotado para estimular o jogador a testar possibilidades e também para incorporar comportamentos inesperados da IA. Assim, conversar deixou de ser apenas uma escolha entre respostas e passou a fazer parte da jogabilidade.
Criada em 2017 por Ricardo Justus e outros dois sócios, a Árvore começou concentrada em experiências de realidade virtual e depois ampliou sua atuação para jogos e storytelling imersivo. A Linha venceu um Primetime Emmy em 2020. Em 2026, além do reconhecimento de Fábula Rasa no SXSW, o estúdio lançou uma experiência de realidade virtual baseada em The Boys.
Segundo Justus, a IA também acelera a criação de protótipos: ideias que poderiam levar semanas para ser testadas podem ser experimentadas em horas. Ele resume a abordagem com a frase: “Eu não sei fazer é só a primeira linha do prompt”.
O executivo vê oportunidades para desenvolvedores da América Latina, embora cite obstáculos no Brasil, como falta de capital, acesso limitado a dispositivos e jogos que nem sempre são localizados ou precificados para o consumidor brasileiro. O Marco Legal dos Games é apontado como avanço, mas ainda haveria espaço para ampliar o fomento público e o capital privado.
Para Justus, a inteligência artificial pode reduzir barreiras técnicas e permitir que equipes menores testem ideias com menos tempo e recursos. Isso não elimina a necessidade de profissionais, investimento ou conhecimento, mas amplia as possibilidades de experimentação.







