A discussão sobre inteligência artificial na indústria criativa não deve ser reduzida à escolha entre aceitar ou rejeitar novas ferramentas, afirma Jeffrey Katzenberg, fundador da WndrCo e da DreamWorks Animation. Para ele, a questão central está nas regras de uso: artistas precisam ter crédito, consentimento e compensação pelo trabalho empregado no desenvolvimento dos sistemas.
Katzenberg compara o momento atual a transformações anteriores do cinema e da música. Em 1906, o compositor John Philip Sousa criticou o fonógrafo por temer que a máquina substituísse a habilidade e a alma humanas. A disputa, porém, também envolvia o fato de que suas composições eram reproduzidas sem pagamento. A campanha contribuiu para a criação da Lei de Direitos Autorais de 1909.
Tecnologia muda o meio, mas também elimina trabalhos
A chegada do som ao cinema oferece outro exemplo. Músicos que tocavam ao vivo nos cinemas perderam seus postos quando as trilhas passaram a ser gravadas. Esses empregos não voltaram, mas a mudança abriu espaço para o musical de cinema, a trilha sonora moderna, os efeitos sonoros, o design de som e a engenharia de áudio.
Na avaliação de Katzenberg, a expansão de uma forma artística não apaga o custo humano da transição. A tecnologia pode ampliar as possibilidades de criação, mas algumas pessoas ficam sem espaço na atividade em que construíram a carreira. Por isso, ele considera insuficiente tratar a resistência dos profissionais como simples oposição ao progresso.
O executivo relata que, durante anos, observou artistas de animação refazendo repetidamente pequenos trechos de filmes. Para ele, a reação de Hollywood nasce do vínculo profundo dos profissionais com o próprio ofício. Em vez de indiferença, a resistência expressa preocupação com algo que eles valorizam.
Em 2023, Katzenberg havia previsto que ferramentas de AI poderiam reduzir em até 90% o tempo e o custo de produção de uma animação de classe mundial dentro de três anos. A previsão provocou alarme e irritação entre colegas. Agora, ele sustenta que a velocidade das ferramentas não resolve sozinha a questão de como o trabalho criativo será reconhecido e remunerado.
O que a animação aprendeu com a tecnologia
Em meados da década de 1980, Katzenberg assumiu a divisão de animação da Disney quando o estúdio precisava repensar seu sistema de produção. Um filme exigia 125.000 células desenhadas e pintadas à mão, fotografadas quadro a quadro. Cada alteração podia acrescentar meses ao processo e limitava os tipos de histórias que poderiam ser produzidas.
A mudança veio com o desenvolvimento do Sistema de Produção de Animação por Computador, conhecido como CAPS, em parceria com a Pixar. A substituição das células pintadas por imagens geradas por computador alterou o processo, mas, segundo Katzenberg, não mudou o princípio que define a animação: a capacidade de fazer o público acreditar nos personagens e se envolver com eles.
Ele cita A Pequena Sereia, A Bela e a Fera, Aladdin e O Rei Leão como exemplos de filmes em que as novas ferramentas ampliaram a luz, a escala e o movimento das cenas. Depois, Toy Story mostrou que uma produção totalmente animada por computador também poderia provocar riso, emoção e identificação.
Na DreamWorks, a decisão de abandonar a animação desenhada à mão e adotar o computador foi acompanhada de perdas. Alguns profissionais se adaptaram e avançaram em suas carreiras; outros não conseguiram fazer a transição. A experiência, para Katzenberg, mostra que a inovação pode aumentar as possibilidades artísticas sem deixar de retirar empregos.
“Não é o como, é o porquê”, escreveu George Lucas, em uma formulação lembrada por Katzenberg. A frase resume a ideia de que instrumentos e métodos mudam, enquanto gosto, imaginação e capacidade de emocionar continuam no centro da criação.
Raciocínio e criação não são a mesma coisa
Katzenberg afirma ter perguntado a um dos principais modelos de AI qual é a diferença entre raciocinar e criar. A resposta, segundo ele, ajudou a separar duas atividades. O raciocínio analisa informações, avalia alternativas e busca uma conclusão correta. A criação produz algo que não existia e depende de escolhas que não podem ser explicadas apenas pela lógica.
Na visão do executivo, o Vale do Silício aperfeiçoou principalmente o raciocínio, enquanto Hollywood acumulou experiência na criação de histórias. Os sistemas atuais conseguem deduzir, otimizar e identificar padrões, mas ainda não demonstram empatia, devoção ou a intenção pessoal de comunicar uma experiência específica.
Essa diferença pode desaparecer no futuro, admite Katzenberg. Os avanços recentes já foram considerados improváveis por líderes do setor alguns anos atrás. Ainda assim, ele afirma que não existe hoje um caminho científico claramente definido para superar essa separação.
Os termos do uso da AI
Depois de vender a DreamWorks em 2016, Katzenberg passou a atuar no norte da Califórnia e cofundou a WndrCo. A empresa apoiou mais de 50 fundadores de empresas de tecnologia, experiência que, segundo ele, permitiu observar como experimentos se transformam em plataformas e, depois, em infraestrutura para diferentes setores.
A partir dessa posição entre tecnologia e entretenimento, ele defende que os criadores dos sistemas incluam os artistas no processo. As ferramentas foram construídas com base em trabalhos produzidos por pessoas, e o uso desse material deveria respeitar autoria, autorização e remuneração.
Ao mesmo tempo, Katzenberg afirma que Hollywood precisa reconhecer que a AI continuará existindo. Em vez de concentrar esforços em impedir sua presença, os profissionais deveriam participar da definição das condições sob as quais a tecnologia será usada. Para ele, o debate mais importante começa depois do reconhecimento de que deve haver regras.
A referência histórica volta a John Philip Sousa. O compositor não impediu a expansão do fonógrafo, mas ajudou a estabelecer condições legais para que compositores recebessem pelo uso de suas obras. Katzenberg relaciona esse episódio às greves de roteiristas e atores ocorridas há dois anos, que também envolveram consentimento, pagamento e reconhecimento do valor do trabalho criativo.
Mais filmes e novas formas de contar histórias
Katzenberg prevê que a redução de custos e de barreiras de produção levará a mais filmes, maior disposição dos estúdios para assumir riscos e novas formas de contar histórias. Ele compara esse possível cenário ao crescimento da animação, antes tratada como um segmento restrito e depois transformada em uma das formas de narrativa mais populares e lucrativas.
Para ele, cineastas como Steven Spielberg, James Cameron e Peter Jackson usaram ferramentas visuais novas como instrumentos, não como atalhos. O mesmo poderia ocorrer com a AI, desde que os artistas participem da transformação e que seus direitos sejam considerados desde o início.
“Está no DNA da Apple que a tecnologia sozinha não é suficiente”, disse Steve Jobs, em uma frase citada por Katzenberg. A combinação entre tecnologia, artes e ciências humanas, na avaliação dele, pode ampliar o alcance das histórias sem retirar dos criadores a responsabilidade pelo que elas significam.








