VARSÓVIA — Presa pela Gestapo em 20 de outubro de 1943, Irena Sendler foi espancada e torturada na prisão de Pawiak. Os agentes queriam descobrir nomes de crianças judias escondidas e de integrantes da resistência, mas ela não revelou nenhuma dessas informações.
Poucos dias antes, Sendler havia assumido a direção da seção infantil da Żegota, o Conselho de Ajuda aos Judeus. Antes da prisão, conseguiu ocultar documentos e dados sobre crianças protegidas pela organização. A sentença determinada pelas autoridades alemãs foi a morte, mas integrantes da Żegota subornaram pessoas responsáveis por sua custódia, e ela escapou.
Para os registros oficiais alemães, Irena deveria estar morta. Na clandestinidade, passou a usar outra identidade e retomou o trabalho para a resistência.
Duas identidades para cada criança
Durante a ocupação, Sendler manteve registros codificados relacionados a 2.500 crianças judias acolhidas em diferentes esconderijos. Os papéis associavam o nome verdadeiro de cada criança à identidade falsa e ao endereço usado para tentar protegê-la.
A rede buscava abrigo em orfanatos, conventos, hospitais, escolas e famílias. Sob o codinome Jolanta, Sendler ajudava a retirar crianças do Gueto de Varsóvia e a providenciar novos nomes e documentos para que pudessem sobreviver escondidas.
Uma tradição ligada à história afirma que parte dos registros foi guardada em recipientes enterrados em um jardim. O projeto histórico Life in a Jar relata que eles foram colocados sob uma macieira.
O gueto e a rede de resgate
Sendler tinha 29 anos e trabalhava na assistência social de Varsóvia quando a Alemanha invadiu a Polônia, em 1939. No ano seguinte, a população judaica da cidade começou a ser confinada no gueto, cercado por muros.
Mais de 400 mil judeus chegaram a ficar concentrados no local. Entre 1940 e meados de 1942, aproximadamente 83 mil pessoas morreram de fome e doenças. Sendler obteve autorização para entrar no gueto sob o pretexto de inspecionar as condições sanitárias. Depois, passou a levar ajuda e a participar da retirada clandestina de pessoas.
Entre julho e setembro de 1942, cerca de 265 mil judeus foram deportados de Varsóvia para Treblinka. A maioria foi assassinada, e outros milhares morreram durante a operação.
Reconhecimento após a guerra
Depois do conflito, Sendler tentou ajudar crianças sobreviventes a recuperar suas identidades. Em muitos casos, não havia familiares para localizar, porque as famílias tinham sido destruídas durante o Holocausto.
O Museu do Holocausto dos Estados Unidos atribui a Sendler a retirada de centenas de crianças, enquanto seu depoimento menciona os registros de 2.500 crianças protegidas pela rede. Em 1965, o Yad Vashem a reconheceu como Justa entre as Nações, título concedido a não judeus que arriscaram a vida para salvar judeus durante o Holocausto.
Irena Sendler morreu em Varsóvia, em 12 de maio de 2008, aos 98 anos.







