O ex-ministro da Economia Paulo Guedes atuou em atividades da OnilX, empresa de criptoativos alvo de uma ordem de suspensão da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e processada por investidores que afirmam não conseguir resgatar os recursos aplicados. A companhia oferecia investimentos com promessa de rendimentos de até 2,8% ao mês.
A OnilX foi atingida por uma stop order no início de 2026, após a CVM concluir que o grupo ofertava valores mobiliários sem autorização. A decisão determinou a suspensão imediata da oferta pública de serviços de intermediação, sob pena de multa diária.
Investidores dizem ter confiado milhões de reais à empresa para aplicações em criptoativos e stablecoins. Eles relatam que os resgates não foram realizados, apesar da promessa de alta liquidez, e alguns afirmam suspeitar de um esquema de pirâmide financeira. Foram identificadas 108 ações contra o grupo entre 12 de junho e 10 de setembro. Os processos tramitam nas Justiças do Paraná, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, São Paulo, Sergipe, Alagoas e Pará.
Participação de Paulo Guedes
Paulo Guedes não aparece no quadro societário da OnilX, mas dava palestras e consultorias, recebia investidores e tinha a imagem utilizada em materiais publicitários da empresa. Também participava de reuniões estratégicas com parceiros comerciais e de eventos ligados ao grupo.
Em dezembro, uma publicação da OnilX mostrou Guedes ao lado do proprietário, Fábio Lino, e de executivos da Visa. A legenda informou que o encontro tratava de estratégias para levar stablecoins ao uso cotidiano e descreveu o ex-ministro como alguém que oferecia suporte e visão à companhia.
Um casal que entrou na Justiça para cobrar R$ 876.513,00 afirmou ter feito novos aportes depois de participar de uma reunião com Guedes na sede da empresa, em abril. Cerca de quatro meses depois, em agosto, os investidores tentaram sacar o dinheiro, mas não conseguiram.
Em outro processo, uma empresa cobra o resgate de R$ 632.183,33 aplicados por meio da OnilX. Mensagens anexadas ao caso mostram uma assessora usando a presença de Guedes no escritório da empresa em São Paulo, na região da Faria Lima, para tentar convencer o cliente a investir. Ela também mencionou a possibilidade de marcar reuniões com o ex-ministro para investidores interessados em valores acima de três milhões, quatro milhões ou cinco milhões de reais.
Em um vídeo de uma palestra para quase 500 pessoas, entre assessores e investidores, Guedes elogiou a posição da OnilX no mercado digital. O ex-ministro não consta como sócio da empresa e não quis se manifestar quando procurado. Fábio Lino também não informou os termos da contratação nem respondeu sobre os processos judiciais.
Decisão da CVM
A ordem foi formalizada em 12 de janeiro de 2026 pela Superintendência de Relações com o Mercado e Intermediários da CVM, por meio do Ato Declaratório nº 24.680. Pareceres técnicos apontaram a oferta de contratos com promessa de rentabilidade fixa diária ou mensal e operações de arbitragem em moedas estrangeiras no mercado de balcão. Para a autarquia, essas características configuram Contratos de Investimento Coletivo sujeitos à regulação federal.
A advogada Anne Caroline Marciquevik passou a representar a OnilX em reuniões com a CVM. Ela foi assessora especial de Paulo Guedes durante o governo de Jair Bolsonaro e atualmente atua na intermediação de contratos e palestras do ex-ministro.
Desde a ordem de suspensão, Anne Caroline Marciquevik participou de seis reuniões com autoridades da CVM. Em 1º de abril, o colegiado da autarquia analisou o recurso da empresa e rejeitou, por maioria, o pedido para revogar a medida cautelar.
Na mesma decisão, a CVM aceitou por unanimidade esclarecer que a proibição não alcança a intermediação simples de criptoativos, como Bitcoin, Ethereum e USDT, quando não houver promessa de rendimento ou contrato de investimento.
Em nota publicada em seu site, a OnilX afirma ser uma empresa regular e confiável, com CNPJ ativo, sede no Brasil e cerca de cinco anos de atuação no mercado de ativos virtuais. A companhia diz oferecer compra, venda, troca, intermediação e custódia de criptomoedas.
A empresa também afirma que a decisão da CVM não proíbe todas as suas atividades e que operações com Bitcoin, Ether e USDT, sem promessa de rentabilidade ou contrato de investimento, estão fora do alcance da ordem. A OnilX nega atuar como gestora de investimentos, prometer rentabilidade fixa ou oferecer contratos de investimento coletivo.






