SANTA CATARINA — Um levantamento do Ministério Público de Santa Catarina indica que 72,6% dos homens que cometeram feminicídio no estado já tinham ao menos um registro policial. Em 44,5% dos casos, eles haviam praticado violência doméstica contra uma mulher anteriormente.
A pesquisa analisou ocorrências registradas entre 2020 e 2024. O estudo também mostra que 64,4% dos autores têm entre 25 e 44 anos, 67,3% não concluíram a educação básica e 53,6% têm filhos com a vítima.
O caso de Vanderlei
O perfil aparece no caso de Vanderlei Pedroso Pereira, morador de Brusque e um dos 274 homens presos atualmente em Santa Catarina por feminicídio. Ele matou duas companheiras e quase matou uma terceira.
A primeira vítima conhecida pelo sistema judiciário foi Maria*, que viveu dois anos com Vanderlei. Após sofrer agressões e ameaças, ela terminou o relacionamento. Mesmo com uma medida protetiva em vigor, o homem invadiu a casa dela, a estuprou e a levou à rua com uma faca no pescoço. Durante a fuga, Maria foi atingida por nove facadas. Um vizinho ouviu os gritos e interrompeu a ação.
Em agosto do ano seguinte, Vanderlei recebeu pena de três anos e meio por tentativa de homicídio qualificado por motivo fútil e desobediência. Ele cumpriu a pena em liberdade. A vítima relatou que passou a trabalhar com medo e manteve o endereço sob sigilo.
Em junho de 2015, Vanderlei foi condenado a 20 anos por homicídio qualificado por motivo fútil e uso de recurso que dificultou a defesa da vítima, após matar uma mulher com quem se relacionava. Em abril de 2025, assassinou outra companheira. Atualmente, cumpre sentença de 53 anos e quatro meses por feminicídio com o agravante de surpresa.
Violência contra mulheres
Santa Catarina teve a menor taxa de homicídios proporcional à população, conforme o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025. Ainda assim, entre as mulheres assassinadas no estado, seis a cada 10 foram vítimas de crimes relacionados à questão de gênero. Nesse indicador, Santa Catarina aparece com o quarto pior resultado do país.
A coordenadora das Delegacias de Proteção à Mulher de Santa Catarina, Patrícia Zimmermann D’Ávila, afirma que muitos casos envolvem relacionamentos íntimos e que parte das mulheres não identifica as formas de violência ou o aumento do risco.
“muitos destes homens, não aceitam o término do relacionamento”, disse Patrícia Zimmermann D’Ávila.
O levantamento também aponta que a maioria das mulheres é morta sem ter registrado boletim de ocorrência contra o agressor. Para a coordenadora, a rejeição ao fim da relação e à autonomia da mulher está entre os elementos observados nos casos de feminicídio.







