ATACAMA — Um dente fossilizado encontrado no sítio El Morro, no Chile, estava em uma camada de sedimentos formada em ambiente marinho raso entre 10 e 7 milhões de anos atrás. A análise indica que o animal viveu na região há cerca de 9 milhões de anos, quando o atual deserto tinha condições compatíveis com a presença de capivaras.
O achado desafia a teoria de que o Atacama mantém aridez extrema de forma contínua há pelo menos 40 milhões de anos. Capivaras são animais semiaquáticos e dependem de água constante e vegetação úmida para se refrescar, reproduzir e fugir de predadores. Atualmente, elas não vivem no Chile.
A pesquisa foi liderada pela Universidade do Arizona, nos Estados Unidos, e publicada na revista Scientific Reports no início de setembro. A autora principal, Priscilla Martinez, afirmou que o fóssil é extraordinário por ter sido encontrado em um depósito marinho de uma das regiões mais secas da Terra atualmente.
Indícios de um ambiente úmido
Além do dente, os mesmos depósitos guardavam fósseis de peixes de água doce e gaviais, que são crocodilos de água doce. Para Mark Clementz, da Universidade de Wyoming, nos Estados Unidos, essas evidências apontam para condições úmidas associadas às capivaras atuais.
Também foram identificados vestígios de palmeiras e outras plantas com flores. Essas espécies precisam de solo úmido e boa umidade do ar, características que não existem no deserto atualmente. Segundo Clementz, a presença das plantas reforça a possibilidade de que houvesse uma comunidade ecológica capaz de sustentar populações de capivaras por longo prazo.
Como os animais podem ter chegado
Uma hipótese apresentada no estudo considera a existência de pântanos de baixa altitude que conectavam a área original de distribuição das capivaras, pelas regiões costeiras, ao norte chileno. A Cordilheira dos Andes, com elevações de até 5,5 mil metros, isolava o Atacama da área em que esses animais vivem atualmente.
Para os pesquisadores, a descoberta também pode contribuir para o estudo das mudanças climáticas do passado, antes da interferência direta dos humanos. O registro do animal no local deve ser usado como base para compreender como o clima pode evoluir ao longo do tempo com a participação humana.







