Uma escola bilíngue não se limita a oferecer mais aulas de uma língua estrangeira. Nesse modelo, o idioma adicional também é usado para ensinar disciplinas como matemática e ciências, além de fazer parte da comunicação da rotina escolar.
Para Ingrid Finger, coordenadora do Laboratório de Bilinguismo e Cognição da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), a principal característica está na integração das duas línguas ao currículo. O estudante desenvolve conteúdos acadêmicos nos dois idiomas, construindo uma proficiência diferente daquela necessária apenas para conversar sobre situações do dia a dia.
Em julho de 2020, o Conselho Nacional de Educação (CNE) aprovou diretrizes para a educação plurilíngue que previam ao menos 30% da carga horária em uma língua adicional na educação infantil e no ensino fundamental. O texto ainda aguarda homologação do Ministério da Educação (MEC), mas passou a orientar parte das escolas.
A porcentagem, porém, não define sozinha uma proposta bilíngue. Se a turma aprende frações em português, por exemplo, o mesmo conteúdo pode ser trabalhado também em inglês. O ponto central é que as duas línguas participem do ensino dos conteúdos, e não que o segundo idioma fique restrito a aulas específicas.
Na Ways Bilingual School, o gerente pedagógico e de produto Bruno Fischetti afirma que o idioma adicional é utilizado em componentes como matemática e ciências, ministrados em português e inglês. Na Escola Eleva São Paulo, a coordenadora pedagógica do ensino infantil Carla Rahal explica que o inglês funciona como instrumento para aprender outros conteúdos, e não como o objeto principal do estudo.
Português e alfabetização
O ensino bilíngue não precisa prejudicar o domínio do português. Segundo Finger, o problema pode surgir quando a escola não oferece à língua materna o mesmo investimento acadêmico necessário para desenvolver as habilidades escolares.
A alfabetização pode ocorrer nos dois idiomas, desde que exista planejamento e que o ritmo de desenvolvimento de cada criança seja respeitado. O contato com a segunda língua deve ser articulado ao trabalho de leitura e escrita em português, com atividades adequadas à idade e acompanhamento dos professores.
Para Finger, a criança também passa a perceber diferentes formas de dizer a mesma coisa, estruturas e maneiras de organizar o pensamento. Esse processo pode ampliar a consciência sobre a própria língua e sobre o funcionamento da linguagem.
James Diver, professor e diretor da Escola Eleva São Paulo, afirma que a experiência também envolve comunicação. As crianças aprendem a identificar a situação, compreender o que precisam expressar e adaptar a maneira de fazer isso, independentemente da língua usada.
Outros idiomas e modelos de ensino
Embora o inglês seja o idioma adicional mais comum, há escolas que trabalham com outras línguas. No Colégio Miguel de Cervantes, os estudantes têm uma formação que integra os sistemas educacionais brasileiro e espanhol e podem obter dupla titulação, reconhecida pelos sistemas educacionais do Brasil e da Espanha.
Em São Paulo, o Colégio Dante Alighieri adota um modelo trilíngue. Italiano e inglês são usados, junto com o português, no ensino de conteúdos de diferentes áreas. A escola também oferece dupla titulação correspondente ao ensino médio do Brasil e da Itália e possibilita a obtenção de certificação em inglês por exames de proficiência.
Uma escola internacional, por sua vez, segue um currículo e uma organização ligados ao sistema educacional de outro país. Pode adotar calendário, avaliações e parâmetros diferentes dos brasileiros, embora algumas instituições também cumpram parte das exigências educacionais do Brasil.
Já a escola com carga horária ampliada oferece mais aulas de inglês durante a semana, sem necessariamente utilizar o idioma para ensinar outras disciplinas. O curso de inglês tem foco em vocabulário, compreensão, fala, leitura e escrita, mas não integra a língua ao currículo escolar dos demais componentes.
Adaptação e escolha da escola
O contato com o segundo idioma na infância tende a tornar o aprendizado mais natural, embora seja possível aprender em diferentes fases. Quando o estudante entra mais velho em uma escola bilíngue, a adaptação depende do apoio oferecido pela instituição.
Na Ways Bilingual School, os novos alunos fazem uma avaliação diagnóstica antes de iniciar as atividades. A escola identifica o nível de compreensão, acompanha as dificuldades e pode oferecer materiais adaptados e reforço.
Na Escola Eleva São Paulo, professores trabalham em conjunto durante o processo de alfabetização. A língua também é apresentada como uma forma de compreender o mundo e de se relacionar com as pessoas.
Ao avaliar uma escola, a família deve verificar se existe uma proposta pedagógica clara e se o idioma é usado para ensinar conteúdos, em vez de aparecer apenas em atividades de vocabulário e gramática.







