Faculdades de medicina que tiveram desempenho baixo na primeira edição do Enamed mudaram avaliações, atividades pedagógicas e formas de preparação dos estudantes antes da segunda prova, realizada neste domingo (13). O exame é voltado aos concluintes da graduação.
Os resultados divulgados em janeiro deste ano apontaram que 107 dos 305 cursos avaliados receberam notas 1 ou 2, em uma escala de 5. Esses resultados podem levar a processos de supervisão e sanções do Ministério da Educação (MEC). Entre os cursos com desempenho baixo, 87 estavam em instituições privadas, com ou sem fins lucrativos.
Mudanças nas faculdades
Após a divulgação dos resultados, o MEC definiu sanções conforme a nota obtida e o percentual de estudantes considerados proficientes. Nos casos mais graves, instituições foram impedidas de receber novos alunos e de abrir novas vagas.
Na Uniderp, em Campo Grande, a média mínima para progressão no curso passou de 6 para 7 pontos em março. Estudantes questionaram a alteração durante o semestre e também reclamaram da redução da carga horária de atendimento a pacientes, substituída por atividades em laboratórios e aulas de cursinho voltadas ao exame.
A instituição obteve nota 2 no último Enamed, com entre 50% e 59,9% dos alunos alcançando proficiência considerada adequada. Por isso, não recebeu sanção, mas passou a ser supervisionada de forma mais rigorosa pelo MEC.
Uma decisão liminar tomada no fim de junho determinou que as notas e a situação acadêmica dos alunos fossem calculadas com base nos critérios anteriores, válidos no início do semestre de 2026. O juiz considerou que havia indícios de mudança relevante nos critérios de aprovação e destacou que as regras devem ser divulgadas com antecedência mínima de 30 dias do início das aulas. A Uniderp recorreu.
A faculdade afirmou ter revisado o projeto pedagógico para fortalecer um “modelo de avaliação contínua e integrada” e informou investimentos em acompanhamento da aprendizagem, tutoria, capacitação docente e recursos educacionais complementares. Entre as medidas, citou a contratação do Grupo MecCof, especializado na preparação para o Enamed e para provas de residência médica.
Na Unicid, em São Paulo, a direção havia determinado que a média mínima passaria de 5 para 6 pontos a partir do segundo semestre deste ano. Em agosto, estudantes protestaram contra a mudança e cobraram a contratação de professores e mais atividades práticas com pacientes reais. Depois da mobilização, a faculdade decidiu que a nova regra valerá apenas no próximo ano e informou que analisa parte das reivindicações.
Na Unisa, na capital paulista, 39 alunos recorreram à Justiça após serem reprovados. Eles afirmam que a instituição aplicou critérios novos, sem aviso prévio e de forma retroativa, depois de protestos por melhorias no curso. A faculdade recebeu nota 2 no Enamed e teve a oferta de novas vagas no vestibular reduzida em 25%, além de ficar impedida de fazer novos contratos do Fies. O caso continua em tramitação, e a instituição não respondeu ao contato por email.
Críticas às estratégias
Especialistas avaliam que as mudanças podem elevar as notas no Enamed sem necessariamente melhorar a formação médica. Alexandre Nicolini, especialista em design curricular e avaliação da aprendizagem no ensino superior, afirmou que as sanções assustaram as faculdades pelo impacto financeiro. Para ele, a contratação de cursinhos é uma “medida paliativa, que prepara o aluno para o conteúdo, mas não para ter competência médica”.
Antônio José Gonçalves, presidente da Associação Paulista de Medicina e professor da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, criticou a substituição de atividades com pacientes por aulas de cursinho, robôs e máquinas. A Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior declarou que as instituições devem usar os resultados para aperfeiçoar projetos pedagógicos, avaliações, atividades práticas, corpo docente e acompanhamento da aprendizagem. A entidade ressaltou que o objetivo não deve ser apenas aumentar o desempenho no exame, mas desenvolver as competências necessárias para o exercício responsável da medicina.







