A Escola Politécnica da USP apresentou 24 soluções desenvolvidas por estudantes para atender necessidades do dia a dia de pessoas autistas e de outros públicos neurodivergentes. Os projetos foram elaborados por alunos da disciplina de circuitos digitais após uma visita a uma unidade de apoio a neurodivergentes e mostrados, no meio deste ano, em uma feira de conhecimento.
Entre as criações está a SensiLogic, uma pulseira que acompanha os batimentos cardíacos e transforma sinais de estresse em alertas visuais. A Aces identifica frequências e ruídos do ambiente que podem provocar incômodo sensorial. Já Expressa e LiteralMente atuam na comunicação: a primeira permite formar mensagens com palavras selecionadas por botões físicos; a segunda interpreta entonações, intenções e sentidos que não aparecem de forma literal.
O Aventura Financeira usa um tabuleiro eletrônico para ensinar escolhas relacionadas a trabalho, estudo, despesas e consumo. A proposta simula situações práticas e amplia o foco da acessibilidade para além de adaptações clínicas ou escolares.
Formação e comunicação
As iniciativas fazem parte da Plataforma Digital da Sociedade Autista, projeto de pesquisa e inovação que reúne alunos e professores na criação de protótipos, treinamentos e ferramentas tecnológicas.
Um curso de capacitação para o mercado de trabalho reúne 50 alunos autistas, dos três níveis de necessidade de suporte. Realizada no campus paulistano por meio de um projeto de extensão universitária, a formação aborda inteligência artificial, planilhas e outras tecnologias. O curso termina no final de setembro. Os participantes que já estiverem trabalhando em empresas parceiras terão acompanhamento por mais três meses.
Renata Borga Casella, 30, participa da oficina e pretende migrar da biomedicina para a área de tecnologia. “Gostei muito de aprender PowerPoint, Excel e a mexer no Gemini”, afirmou.
O professor e pesquisador colaborador Emanuel Santana desenvolveu o Adapte Board, um modelo nacional de prancha de comunicação aumentativa e alternativa para pessoas autistas ou com dificuldade de fala. A ferramenta pode ser baixada gratuitamente em smartphones e computadores, usa figuras e sinais visuais e permite personalização.
Música e participação dos estudantes
Com orientação de Eduardo Mancebo, arquiteto formado pela FAU-USP e especialista há 25 anos em orientação prática de indivíduos no espectro, o aluno de engenharia da computação Lucas Felipe Pereira Domingues criou um dispositivo apoiado por inteligência artificial. O recurso auxilia a composição de músicas com finalidade terapêutica e educativa, da ideia da letra à melodia e à música finalizada.
Como a geração de áudio por inteligência artificial demora cerca de dois minutos, o projeto incorporou à tela de espera um jogo de estourar bolhas e um guia de respiração guiada, para evitar desconforto sensorial e ansiedade.
Para Jorge Luis Risco Becerra, professor da Poli e um dos responsáveis pela iniciativa, a formação deve estimular os alunos a pensar em aplicações capazes de ajudar a sociedade. Becerra também afirmou que os estudantes criaram artefatos que podem se transformar em protótipos de uso real.







