ROMA — A primeira encíclica do papa Leão XIV, Magnifica humanitas, defende que o desenvolvimento da inteligência artificial seja acompanhado por regras, supervisão e limites éticos. Publicado em maio, o documento afirma que a tecnologia não é neutra, porque carrega características de quem a desenvolve, financia, regulamenta e utiliza.
Entre as prioridades apresentadas estão a proteção da dignidade humana, a fiscalização independente dos sistemas, a criação de políticas e estruturas legais adequadas, a adoção de padrões éticos compartilhados e a educação para o uso responsável das ferramentas digitais.
Riscos de concentração e efeitos no trabalho
Leão XIV também alerta que a concentração das ferramentas de IA nas mãos de poucos pode ampliar a distância entre as pessoas incluídas na transformação digital e aquelas que permanecem fora dela.
O papa reconhece que a tecnologia pode assumir tarefas repetitivas, mas questiona um modelo de trabalho em que os trabalhadores precisam acompanhar continuamente o ritmo das máquinas. Para a encíclica, produtividade e lucro não devem ser os únicos critérios para orientar o avanço tecnológico. Dignidade e bem comum também precisam ser considerados.
Aplicações militares
A inteligência artificial empregada em conflitos recebe atenção específica no documento. Leão XIV afirma que a transformação digital está mudando a natureza das guerras e exige limites éticos definidos internacionalmente.
Segundo o papa, sistemas desse tipo podem acelerar confrontos, tornar mais impessoais as decisões sobre vida e morte e transformar vítimas em dados. Em uma mensagem enviada à conferência AI4Peace, ele declarou: “Não há algoritmo que possa tornar a guerra moralmente aceitável”.
A conferência ocorreu na Pontifícia Universidade Lateranense, em Roma. Participaram do encontro o economista Jeffrey Sachs, Svetlana Celli, presidente do conselho municipal de Roma, e Francisco Rojas Aravena, reitor da Universidade para a Paz das Nações Unidas, na Costa Rica.
Em outra mensagem enviada ao evento, o pontífice afirmou: “Em um mundo marcado por conflitos e divisões, o desenvolvimento da inteligência artificial exige uma visão inspirada pela sabedoria e pela caridade”. O documento apresenta o diálogo, a diplomacia e a cooperação internacional como alternativas à lógica de poder e associa o avanço da IA à paz, à dignidade humana e ao bem comum.







