Uma coordenada inserida incorretamente durante uma expedição em 1999 levou pesquisadores a uma amostra que ajudou a identificar sinais de terremotos próximos entre Cascadia e San Andreas. O navio foi parar 90 quilômetros ao sul do ponto planejado, no cânion submarino de Noyo, e o geólogo Chris Goldfinger decidiu aproveitar o desvio para coletar sedimentos.
O material apresentava uma organização incomum: camadas finas apareciam abaixo de uma camada espessa. Em depósitos formados por correntes de turbidez, o padrão esperado é o inverso, com grãos grossos na parte inferior e sedimentos finos acima. A estrutura encontrada indicou que dois episódios de deposição poderiam ter acontecido em sequência.
O que os sedimentos indicam
Liderado por Goldfinger, da Universidade Estadual de Oregon, o estudo foi publicado na revista Geosphere. Os pesquisadores compararam amostras de diferentes pontos da costa e usaram datação por radiocarbono para estimar a idade dos depósitos, preservados em camadas de sedimentos marinhos.
A análise cobriu aproximadamente 3.100 anos. Nesse período, foram identificados 18 depósitos relacionados a terremotos em Cascadia e 19 associados à falha de San Andreas. Cerca de 10 registros ocorreram em datas semelhantes. Outros oito apresentaram a mesma organização considerada anômala pelos pesquisadores.
Essas formações foram chamadas de doublets, ou camadas duplas. A hipótese é que o primeiro depósito tenha sido produzido por um terremoto em Cascadia e o segundo por outro tremor, ocorrido pouco depois, em San Andreas. Em três episódios dos últimos 1.500 anos, as características das camadas sugerem uma diferença de apenas minutos ou horas entre os eventos.
Cascadia é uma zona de subducção que acompanha a costa ao norte. Nela, placas oceânicas mergulham sob a placa Norte-Americana e acumulam energia suficiente para produzir terremotos de magnitude 9 ou superior. San Andreas e Cascadia pertencem a sistemas diferentes, mas ambas se encontram na Califórnia.
O estudo sugere que um terremoto em Cascadia pode alterar as condições de tensão na região vizinha e favorecer outro evento em San Andreas. A pesquisa, porém, não demonstra que todo tremor em Cascadia provoque um segundo terremoto. Para Goldfinger, a possibilidade de ocorrências sucessivas deve ser considerada nos planos de emergência, já que um intervalo curto entre os eventos poderia colocar grandes cidades em perigo ao mesmo tempo e dificultar o transporte de suprimentos e equipes de resgate.







