MANAUS — A fumaça das queimadas já alcança a região metropolitana de Manaus, enquanto municípios do Amazonas registram aumento no número de focos de incêndio. Em setembro, a média diária de material particulado na cidade ficou acima do limite recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS).
Entre 1 e 22 de setembro, o Programa Queimadas, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), identificou 3.240 focos no estado. No mesmo período do ano passado, foram 942. A alta foi de 244%.
Os focos estão concentrados nas regiões norte, leste e sul do Amazonas, entre Novo Aripuanã, Lábrea, Apuí, Careiro, Iranduba e Autazes.
Fumaça chega à região metropolitana
A plataforma RedeAr registrou, ao longo de setembro, média diária superior a 30 µg/m³ de material particulado. A recomendação da OMS é de até 15 µg/m³.
Na manhã desta quarta-feira (23), o Sistema Eletrônico de Vigilância Ambiental da Universidade do Estado do Amazonas registrou 291 µg/m³ em Manaus. O índice é considerado bom entre 0 e 25 µg/m³ e péssimo quando passa de 125 µg/m³.
Conhecido como Selva, o sistema monitora a qualidade do ar em vários pontos da capital. Nos últimos dias, os sensores chegaram a apontar 280 µg/m³ de material particulado.
Moradores relatam cheiro forte de fumaça e paisagem acinzentada há duas semanas. O uso de máscaras se tornou necessário para parte da população, que também apresenta sintomas como ardência nos olhos, no nariz e na garganta.
A fumaça contém poluentes como monóxido de carbono e dióxido de nitrogênio. O material particulado com diâmetro inferior a 2,5 micrômetros, chamado de PM2,5, pode atingir os pulmões e a corrente sanguínea e permanecer no organismo por meses após a exposição.
Calor e mudanças no deslocamento da fumaça
Sonaira Silva, professora da Universidade Federal do Acre e membro da Academia Brasileira de Ciências, relaciona a situação às características climáticas do El Niño. Segundo ela, o fenômeno está associado a temperaturas elevadas, mais incêndios e maior presença de fumaça no Amazonas.
O estado registrou nesta terça-feira (22) a maior temperatura do ano: 38,6°C, conforme dados do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet). A Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (Noaa), dos Estados Unidos, prevê que o El Niño alcance um patamar muito forte a partir deste mês.
O enfraquecimento dos ventos também contribui para a permanência da fumaça. De acordo com o Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia, normalmente os ventos levariam a fuligem para oeste, em direção ao Peru. Com a influência do El Niño, porém, ela pode ser transportada para Manaus e municípios próximos.
Para Samantha Lacerda, mestre em Clima e Ambiente, o fogo se espalhou para uma área diferente da concentração habitual, no sul do Amazonas e no chamado arco do desmatamento. “Você tem uma umidade relativa muito baixa, o que favorece condições mais secas e, consequentemente, maior número de queimadas”, afirmou.
Aumento em municípios do interior
Itacoatiara registrou 133 focos de calor entre 1 e 22 de setembro. No mesmo período do último El Niño, em 2024, foram 62, o que representa aumento de 114%.
Em Careiro Castanho, o número passou de 47 focos no pior ano do El Niño para a região para 76 agora, uma elevação de 61%.
Na comunidade São João, localizada no km 35 da BR-319, moradores tentam controlar um incêndio há uma semana. Lúcia Pereira, 58, afirmou: “Esse fogo tá estalando há semanas. Os meninos estão sofrendo tentando apagar”.
A previsão é de continuidade da temporada de queimadas e fumaça pelos próximos meses. Em 9 de setembro, o governador do Amazonas, Roberto Cidade (União), assinou decreto que proibiu o uso de fogo no estado. O documento prevê declaração de situação de emergência quando a concentração de material particulado superar 250 µg/m³.
O decreto permite que órgãos públicos recomendem a redução ou a suspensão temporária de atividades presenciais, mas ainda não foi cumprido. O governo estadual e a Prefeitura de Manaus foram questionados sobre medidas emergenciais e de longo prazo, mas não responderam.







