A inteligência artificial passou a ocupar etapas iniciais dos processos seletivos, principalmente na organização de candidaturas, na transcrição de entrevistas e na classificação de perfis. No Brasil, o uso mais comum ocorre em entrevistas assíncronas, nas quais o candidato grava respostas em vídeo para perguntas previamente definidas.
Fábio Salomon, headhunter, mentor de carreiras e apresentador do podcast Café com Sal, explica que a tecnologia transcreve, organiza e pontua o material com base em critérios estabelecidos pelo setor de Recursos Humanos. Chatbots também assumem verificações objetivas, como pretensão salarial e domínio de idiomas.
Para Dalvelyn Menezes Kalachi, sócia e head de Inteligência Operacional do escritório Ernesto Borges Advogados, a IA pode estruturar o processo para realizar etapas que antes dependiam do recrutador. “A IA faz uma primeira análise em escala e organiza as informações”, afirma a advogada.
A decisão final, porém, permanece com o líder da área responsável pela vaga. A avaliação envolve contexto, cultura e julgamento, aspectos que não são delegados ao software. Com essa mudança, profissionais de Recursos Humanos passam a se concentrar mais no desenvolvimento de talentos, no acompanhamento de desempenho e no fortalecimento da cultura corporativa.
Limites e cuidados
A automação também traz discussões éticas e jurídicas. Filtros baseados em palavras-chave podem excluir candidatos, enquanto ferramentas de análise de expressão facial são questionadas por pesquisadores e órgãos reguladores. A empresa americana HireVue encerrou esse tipo de análise em 2021.
No Brasil, a Lei Geral de Proteção de Dados garante o direito de solicitar a revisão de decisões tomadas unicamente por tratamento automatizado. O Projeto de Lei 2338/2023, em análise no Congresso Nacional, classifica o recrutamento automatizado como uma aplicação de alto risco.
Para os candidatos, Salomon recomenda respostas claras e pouco engessadas. A orientação é separar de cinco a sete histórias reais da carreira e relacioná-las a situações, ações e resultados mensuráveis. A tecnologia acelera a triagem inicial, mas a escolha definitiva ainda depende da avaliação humana sobre alinhamento cultural, empatia e visão de futuro.







