SERRA DO ARACÁ — Um pequeno lagarto adaptado ao arenito das áreas abertas do platô pode representar uma nova espécie para a ciência. A captura ocorreu durante uma expedição que investiga a biodiversidade dos ecossistemas de altitude da Serra do Aracá, no extremo norte do Amazonas.
A equipe de 16 cientistas está acampada no topo de um tepui desde 24 de agosto. O local fica a 1.260 metros de altitude e a 220 quilômetros ao norte de Barcelos. A pesquisa é financiada pela FAPESP e conta com o apoio do Exército Brasileiro nas operações de logística e segurança.
Resultados encontrados no campo
Na primeira fase de exploração, os pesquisadores da herpetologia registraram de oito a nove espécies de anfíbios e de quatro a cinco espécies de lagartos. O isolamento da região mantém alta a expectativa de identificação de novas formas de vida.
O grupo também capturou um roedor que parece pertencer ao gênero Zygodontomys. O animal é típico de áreas abertas e de campinarana, vegetação que cresce sobre solos arenosos e pobres em nutrientes, mas também ocorre na altitude da Serra do Aracá. A captura aconteceu no segundo dia da expedição e surpreendeu os especialistas em pequenos mamíferos, que não haviam encontrado o gênero em trabalhos anteriores no Pico da Neblina e na Serra do Imeri.
As aves apresentaram um quadro diferente. Os ornitólogos encontraram muitos beija-flores, favorecidos pela abundância de flores no platô, e coletaram três indivíduos da espécie Colibri delphinae. A ave não havia sido registrada nas expedições anteriores à Serra do Imeri e ao Pico da Neblina. Nas matas de encosta, porém, a quantidade de aves foi considerada baixa pelos pesquisadores.
Rotinas definidas pelo comportamento dos animais
O horário de cada grupo depende das espécies procuradas. As botânicas iniciam as incursões por volta das 7h, depois do café das 6 horas. Durante o dia, coletam plantas com flores ou frutos, prensam os exemplares e preservam fragmentos de folhas em sílica gel para manter o material genético.
Nos cinco primeiros dias, elas reuniram mais de 100 espécimes e identificaram populações de canela-de-ema, plantas do gênero Vellozia, além de orquídeas terrestres do gênero Catasetum. As amostras serão incorporadas ao acervo do Inpa e compartilhadas com outros herbários do Brasil e de outros países parceiros.
Os ornitólogos começam o trabalho por volta das 4h, quando procuram aves ativas no fim da noite e nas primeiras horas da manhã. Eles usam redes de neblina, binóculos e gravadores de som. Depois, pesam e medem os animais, retiram tecidos e fazem a preparação taxonômica.
À noite, a busca se concentra nos anfíbios. Depois do jantar, por volta das 18h, os herpetólogos entram na mata com lanternas para localizar sapos, rãs e pererecas que cantam nos riachos. Os pesquisadores precisam associar cada canto ao indivíduo que o produz, procedimento que permite conferir a identificação da espécie e preservar o chamado junto ao exemplar coletado.
A coleta de insetos também ocorre durante o dia. A entomologista Gabriela Procópio Camacho procura formigas, cupins e outros grupos, inclusive para ampliar o acervo do Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo. O material que não for analisado por ela será destinado a outros especialistas.
A expedição reúne pesquisadores da USP, do Inpa, do Ifam, da UFSCar, da Universidade de Toulouse, da Universidade Autônoma de Madri, do Jardim Botânico do Missouri e do Museu de História Natural de Oslo. O trabalho inclui amostras de fauna, flora, água, solo e sangue de animais dos ambientes isolados do topo da serra.







