A startup americana Kindred Companion Sciences criou dois cães geneticamente modificados para não produzir a proteína Can f 1, responsável por grande parte das alergias causadas por cães. As beagles Alfie e Bailey nasceram em setembro de 2024 e vivem há dois anos sem efeitos adversos observados até agora.
O experimento usou a técnica CRISPR-Cas9 para desativar o gene Can f 1. Depois, os genomas modificados foram transferidos para embriões, implantados em uma cadela. Ela recebeu 25 embriões, dos quais dois resultaram em filhotes.
Os pesquisadores não detectaram a proteína Can f 1 na saliva nem nos pelos das cadelas. Essas são as duas principais vias de exposição humana aos alérgenos caninos. O sequenciamento completo do genoma também não identificou outras alterações inesperadas nos trechos de DNA analisados.
Os resultados foram publicados em agosto na revista CRISPR Journal, em um artigo revisado por outros cientistas. A técnica CRISPR-Cas9 recebeu o prêmio Nobel em 2020.
Segurança e próximos passos
Apesar dos resultados iniciais, Alfie e Bailey ainda precisam ser observadas por mais tempo. Efeitos adversos podem surgir no futuro ou aparecer apenas quando a empresa produzir cães em quantidade suficiente para revelar efeitos colaterais raros.
A Kindred Companion Sciences pretende criar animais fundadores, capazes de se reproduzir naturalmente e transmitir a característica aos filhotes. Para que esses cães sejam comercializados, porém, a alteração genética precisa ser aprovada pela FDA, órgão regulador dos Estados Unidos.
A modificação também não eliminaria todas as alergias a cães. Outras proteínas, como a Can f 2, podem provocar reações. Atualmente, não existem cães verdadeiramente hipoalergênicos. Raças que soltam pouco pelo, como shih tzus, poodles e schnauzers, podem ser toleradas por pessoas com alergias leves, mas ainda produzem alérgenos.
Uma edição genética semelhante já foi feita em gatos há dois anos, mas os felinos modificados também não estão disponíveis ao público.
Debate ético
A edição genética de animais provoca discussões sobre segurança e ética. A especialista em genética animal Alison Van Eenennaam, da Universidade da Califórnia em Davis, afirmou que tanto a edição genética quanto a criação seletiva produzem animais para companhia. Ela também citou raças com problemas de saúde associados à seleção de características extremas, como cães de focinho achatado que têm dificuldade para respirar.
Matt Walker, cofundador da Kindred Companion Sciences, disse que convive com alergia a cães e que a modificação permitiu sua relação com Bailey. “Ela é uma cadela feliz, saudável e incrivelmente meiga”, afirmou.
Walker também defendeu a aplicação da técnica em cães de serviço para pessoas alérgicas, como cães-guia, desde que a saúde dos animais seja protegida.





