Vídeos e fotos de raias que parecem sorrir durante momentos de alimentação ou contato com pessoas mostram, na verdade, uma ilusão causada pela anatomia desses animais e pela forma como o cérebro humano reconhece padrões.
Na parte inferior do corpo da raia, a boca pode ser confundida com uma boca sorrindo. Já os dois pontos próximos correspondem às narinas, ligadas ao sistema olfatório. Os olhos verdadeiros ficam na parte superior do corpo, voltados para a observação do ambiente enquanto o animal procura alimento no leito de rios ou oceanos.
“A disposição dessas estruturas acaba lembrando dois olhos e uma boca sorrindo, e o nosso cérebro imediatamente reconhece aquilo como um rosto”, afirma a bióloga Carol Braga. Esse mecanismo psicológico é chamado de pareidolia, quando características familiares são identificadas em objetos ou animais.
O que as raias podem sentir
A aparência simpática não comprova felicidade. O estresse em elasmobrânquios, grupo que reúne raias e tubarões, é documentado por alterações metabólicas relacionadas à captura, contenção ou manipulação. Também há evidências de que peixes cartilaginosos respondem de forma complexa a estímulos nocivos.
A investigação sobre estados emocionais positivos nesses animais ainda é limitada. Ao mesmo tempo, estudos indicam que raias e tubarões apresentam aprendizagem, memória, preferência, habituação e comportamento social, de acordo com Fernando Resende, professor de medicina veterinária no Uniceplac.
Raias também podem demonstrar aprendizagem associativa, memória espacial e discriminação visual. Espécies de água doce do gênero Potamotrygon foram documentadas usando jatos de água para manipular objetos e conseguir alimento.
Um estudo realizado no Aquário de São Paulo observou que esconder o alimento no substrato estimula comportamentos naturais de busca, amplia a diversidade comportamental e reduz a inatividade. Em aquários, as raias ainda podem associar a presença de cuidadores ou horários específicos à oferta de comida, aproximando-se da superfície por condicionamento e antecipação.
O interesse provocado pelas imagens pode ser usado para explicar a biologia das raias, seus sistemas de orientação e a importância da preservação desses animais. “A melhor estratégia é justamente usar o mito como porta de entrada para a ciência”, sugere Resende.







