Terça-feira, 8 de setembro de 2026
Ciência

O que ossos, dentes e novas técnicas revelam sobre pessoas desaparecidas

A antropologia forense combina análises do corpo, odontologia, DNA e tecnologia para identificar vítimas e apoiar famílias e investigações.

O que ossos, dentes e novas técnicas revelam sobre pessoas desaparecidas

A antropologia forense usa ossos, dentes, características anatômicas e dados genéticos para identificar pessoas mortas ou desaparecidas, mesmo anos ou décadas após a morte. O trabalho também pode ajudar a esclarecer traumas, reconstruir possíveis deslocamentos e reconhecer pessoas ainda vivas em investigações.

A primeira etapa é estabelecer um perfil biológico dos remanescentes humanos. A partir do esqueleto, especialistas estimam sexo, idade aproximada, estatura e afinidade populacional — conjunto de características genéticas transmitidas entre gerações. A pelve costuma ser a estrutura mais confiável para estimar o sexo biológico; o fêmur ajuda a calcular a estatura; e as clavículas podem fornecer informações relacionadas à idade.

“Estimativas a partir dos ossos são feitas para determinar quem aquela pessoa poderia ser”, explica Cláudia Plens, professora da Unifesp e fundadora de um dos primeiros cursos destinados a futuros antropólogos concursados pela Polícia Federal.

Marcas preservadas no esqueleto

O esqueleto também pode registrar traumas causados por facas, projéteis de arma de fogo ou instrumentos contundentes. Essas marcas podem permanecer durante anos. Por outro lado, alterações ósseas não revelam todos os tipos de morte: uma parada cardíaca, por exemplo, não deixa necessariamente sinais no tecido ósseo.

Fraturas antigas, doenças degenerativas, próteses metálicas, placas cirúrgicas, hábitos cotidianos e pequenas deformações anatômicas podem funcionar como características individuais. Em determinadas situações, essas informações são mais úteis para a identificação do que o próprio material genético.

O antropólogo forense geralmente trabalha em laboratório, depois que os remanescentes são recolhidos. Já o arqueólogo forense atua no local da ocorrência, em áreas como cemitérios clandestinos, valas comuns e cenas complexas de crime. Ele registra a posição dos vestígios e reconstrói a relação entre os elementos encontrados.

Segundo Plens, muitos órgãos policiais brasileiros não têm arqueólogos forenses em seus quadros técnicos. A legislação também limita a atuação oficial na perícia criminal a peritos criminais, médicos-legistas e odontolegistas, o que restringe a participação direta de profissionais de outras áreas.

As escavações podem revelar objetos importantes para as famílias. Uma peça pequena, segundo Plens, pode ter grande significado para as pessoas afetadas pelo desaparecimento.

Por que o DNA não basta

O DNA é um método primário de identificação, mas depende de comparação. Para confirmar a identidade, é necessário relacionar o perfil genético a um banco de dados confiável ou ao material de um familiar que procura a pessoa desaparecida.

“Sem comparação, não é possível identificar. Eu preciso ter um padrão e casar essas características com aquilo que encontrei no corpo”, afirma Leticia Sobrinho, antropóloga forense do IML de Salvador, na Bahia.

Por isso, a análise antropológica reduz previamente o número de possibilidades. Quanto mais completo for o perfil biológico obtido nos remanescentes, menor será o universo de pessoas com quem o DNA precisará ser comparado. Esse trabalho pode levar dias, semanas ou até anos, enquanto as necrópsias duram algumas horas.

Dentes e reconstrução facial

A odontologia legal é outro recurso importante. Formato, posição e desgaste dos dentes, além de restaurações, extrações, tratamentos de canal, aparelhos ortodônticos e cáries, podem individualizar uma pessoa.

Os dentes costumam resistir a condições que destroem outros tecidos, inclusive em incêndios. Por isso, registros odontológicos, DNA e papiloscopia — identificação por impressões digitais — integram o grupo de identificadores primários recomendado para vítimas de desastres.

Quando não há documentos, familiares ou rosto preservado, a reconstrução facial pode ajudar. O crânio serve de base para estimar a aparência aproximada da pessoa. Antes, o procedimento era feito com argila e moldes de gesso aplicados sobre réplicas do crânio. Atualmente, softwares, tomografias computadorizadas, escaneamentos tridimensionais e fotogrametria permitem criar modelos digitais.

O processo considera pontos craniométricos, sexo, idade, formato facial e espessura média dos tecidos moles. O objetivo não é produzir um retrato perfeito, mas estimular o reconhecimento. Uma imagem divulgada pode levar familiares, amigos ou conhecidos a procurar as autoridades e fornecer pistas.

Eugénia Cunha, professora da Universidade de Coimbra, destaca o potencial dessa técnica, mas ressalta que a qualidade do resultado depende também da precisão das análises biológicas feitas no esqueleto.

Isótopos e análise de pessoas vivas

Os isótopos estáveis são uma técnica em desenvolvimento. Eles analisam elementos químicos incorporados ao organismo por meio da alimentação e da água. Esses sinais ficam registrados em cabelos, unhas e dentes e podem indicar por onde a pessoa passou ao longo da vida.

“Pelo crescimento do cabelo, você consegue saber por onde essa pessoa foi passando ao longo do tempo”, afirma Plens. A técnica pode ajudar a investigar se a vítima vivia no local onde foi encontrada ou se havia viajado antes da morte.

A antropologia forense também atua com pessoas vivas. A disciplina pode estimar a idade biológica de refugiados e migrantes sem documentos, a partir do desenvolvimento ósseo, do fechamento das cartilagens de crescimento e da maturação de determinados ossos.

Em investigações, imagens podem mostrar apenas uma orelha, parte do nariz, uma mão ou pequenos detalhes do rosto de um suspeito. O formato da orelha, a implantação do nariz, cicatrizes e outras estruturas de tecidos moles podem ser comparados com fotografias e vídeos.

Desafios no Brasil

Dados do Ministério da Saúde indicam que pelo menos 3,7 mil cadáveres não são identificados no Brasil todos os anos. Um dos problemas está na falta de integração entre informações de diferentes estados.

Um corpo pode ser encontrado em São Paulo, enquanto o boletim de desaparecimento foi registrado no Pará. Se os dados fornecidos pela família, os exames e os bancos locais não forem cruzados, a identificação pode não ocorrer.

Na ausência de uma plataforma nacional integrada, o país ainda trabalha em grande parte com sistemas estaduais independentes. Assim, informações essenciais podem permanecer separadas por anos.

A formação profissional também não é padronizada. Plens afirma que métodos diferentes são usados em cada estado e que muitos especialistas aprendem por conta própria. Para enfrentar essa lacuna, ela criou na Unifesp um dos únicos cursos brasileiros dedicados exclusivamente à antropologia forense. A especialização dura dois anos e formou três turmas.

Outro desafio é adaptar técnicas desenvolvidas com base em populações europeias ou norte-americanas à realidade brasileira, marcada pela miscigenação. Para Leticia Sobrinho, os métodos precisam ser desenvolvidos ou validados para a população do país.

Texto produzido pela Redação Aprende em Foco com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

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