O grupo de pesquisadores brasileiros que investigou o comportamento de jararacas diante de humanos recebeu o Ig Nobel de Biologia de 2026. O anúncio ocorreu nesta quinta-feira (3), em Zurique. Para realizar o estudo, os cientistas fizeram mais de 40 mil aproximações e contatos leves com as serpentes, usando uma bota de proteção.
Os premiados são João Miguel Alves Nunes, Adriano Fellone, Selma Maria Almeida-Santos, Carlos Roberto de Medeiros, Ivan Sazima e Otavio Augusto Vuolo Marques. A premiação é concedida pela Annals of Improbable Research e reconhece pesquisas consideradas surpreendentes, com a intenção de fazer o público rir e depois refletir. Os vencedores recebem uma cédula de dez trilhões de dólares do Zimbábue.
O que o estudo avaliou
Participaram da pesquisa 116 jararacas, entre adultas, juvenis e recém-nascidas. Os pesquisadores aproximaram o pé dos animais de maneiras diferentes: em uma das situações, chegaram a cerca de 5 centímetros sem encostar; em outra, tocaram levemente as serpentes com a bota.
O trabalho analisou se o tamanho, a temperatura, o sexo e a região do corpo atingida alteravam a probabilidade de uma picada. O contato na cabeça esteve associado a uma chance aproximada de 44% de picada defensiva. No meio do corpo, o índice caiu para 20%; na cauda, ficou em 11%.
A idade também influenciou o comportamento. As chances de picada dos recém-nascidos foram 2,17 vezes maiores que as dos adultos, e as fêmeas recém-nascidas apresentaram a maior tendência a atacar entre os estágios avaliados. A temperatura teve efeitos diferentes conforme o sexo: entre as fêmeas, ambientes mais quentes foram associados a maior chance de picada. Entre os machos, à noite, temperaturas elevadas estiveram ligadas a menor tendência ao bote.
Questionamentos éticos
O artigo havia sido publicado pela Scientific Reports, mas a revista pediu sua retratação após questionamentos sobre a ética do experimento. A publicação afirmou que a autorização concedida aos pesquisadores não incluía o uso de serpentes recém-nascidas nem o ato de pisar nos animais durante os testes.
Os autores não concordaram com a retratação. Eles disseram que o método baseado na aproximação do pé segue pesquisas anteriores e que não compromete os resultados. João Miguel Alves Nunes, primeiro autor, foi afastado do projeto depois de ser picado quatro vezes e apresentar reação alérgica ao veneno e ao soro antiofídico.





