Uma análise da Rede Escola Pública e Universidade (Repu) encontrou 4.305 estudantes da rede estadual de São Paulo com variações consideradas atípicas entre as três edições do Provão Paulista. O grupo afirma que os resultados podem ter afetado a seleção para universidades estaduais e aponta indícios de fraude sistêmica. A Secretaria da Educação contesta essa interpretação.
O estudo foi elaborado a partir de microdados das provas de 2023, 2024 e 2025, fornecidos pela própria Seduc. Os pesquisadores compararam o desempenho dos mesmos alunos ao longo do período e classificaram como atípica a variação superior a três desvios-padrão em relação ao ano anterior — cerca de 20 pontos em uma avaliação com 90 questões de múltipla escolha.
Onde os resultados se concentraram
Metade dos casos identificados ocorreu em 50 escolas, entre mais de 5.500 unidades da rede paulista. A concentração também apareceu na distribuição regional: metade dos resultados fora do padrão foi registrada em 8 das 91 unidades regionais de ensino do estado.
A Repu identificou ainda ao menos nove escolas em que mais de 75% dos alunos do 3º ano, em 2025, apresentaram esse tipo de variação. Em uma dessas unidades, 45 dos 46 estudantes que fizeram a prova tiveram saltos superiores a três desvios-padrão.
Entre alunos do 3º ano das escolas técnicas estaduais, os casos foram menos frequentes. Dos mais de 30 mil estudantes que realizaram o exame, 53 tiveram resultados atípicos, o equivalente a 0,17%. Na rede estadual, foram 4.305 casos entre quase 225 mil participantes, ou cerca de 1,91%.
Para Leonardo Crochik, professor do Instituto Federal de São Paulo e um dos responsáveis pela análise, a proporção esperada de pontos fora da curva seria de aproximadamente 0,15%. Ele afirmou que a diferença observada supera 12 vezes esse parâmetro e aparece concentrada em poucas escolas.
Diferenças no desempenho
O Provão Paulista é aplicado ao fim de cada uma das três séries do ensino médio. Criado pelo governador Tarcísio de Freitas em 2023, o exame é uma das formas de ingresso na USP, na Unicamp, na Unesp e na Univesp.
De acordo com a análise, a mediana de acertos dos estudantes da rede estadual variou entre 23 e 30 questões, conforme a série e a edição. Entre alunos das redes municipais e das Etecs, a mediana ficou entre 29 e 46 questões. Caso todas as respostas fossem chutadas, a média esperada seria de 18 acertos.
Um exemplo citado pelos pesquisadores é o de alunos que fizeram 25 pontos em 2023 e passaram a obter notas acima de 60 em 2024 e 2025. As medianas dos estudantes da rede estadual foram de 25 pontos para o 1º ano em 2023, 24 pontos para o 2º ano em 2024 e 28 pontos para o 3º ano em 2025.
O relatório afirma que o salto para notas entre as mais altas da rede deveria ser investigado. Os pesquisadores dizem que o objetivo não é indicar quais estudantes ou escolas teriam fraudado a prova, mas avaliar se falhas na elaboração e na aplicação permitiram a propagação de resultados anômalos.
Desde a primeira edição, segundo o grupo, houve denúncias de vazamento das provas e de uso de celulares durante a aplicação. Em 2023, o tema da redação circulou nas redes sociais na véspera do exame. A Seduc admitiu o vazamento, mas não anulou a prova e afirmou que não houve prejuízo ao processo seletivo. Nas edições seguintes, também foram registradas denúncias de vazamento, uso de celular e facilitação de cola por professores que atuavam como aplicadores.
Os pesquisadores questionam ainda o fato de o Provão ser usado para avaliar escolas e definir bonificações e punições para docentes e diretores. Para o grupo, essas funções criam conflito de interesse, já que profissionais afetados pelos resultados também podem participar da fiscalização da prova.
Dos 14.271 estudantes da rede estadual selecionados para universidades no último Provão, 11,3% estudavam em escolas com alta incidência de resultados atípicos.
Contestação da Secretaria da Educação
A Seduc afirmou que os dados não permitem concluir que houve fraude ou comprometimento do processo seletivo. A secretaria classificou como temerária a associação entre resultados estatisticamente atípicos e fraude sem evidências individualizadas.
A pasta também informou ter feito uma análise complementar em escolas com muitos resultados atípicos e identificado evolução relevante em matemática, no Saeb, em 34 delas. Segundo a secretaria, desempenhos elevados ou avanços expressivos também foram observados em uma avaliação externa e independente do Provão.
A Seduc não respondeu se pretende substituir os professores das próprias escolas por outros profissionais na fiscalização da prova. Sobre as denúncias de vazamento e uso de celulares, afirmou que foram ocorrências pontuais. Em 2025, identificou seis casos de estudantes que entraram com celulares e fotografaram questões durante o exame. As provas foram anuladas, e as equipes escolares receberam orientações sobre o regulamento.
A Fundação Vunesp, responsável pela elaboração da prova, declarou adotar procedimentos de segurança em todas as etapas sob sua responsabilidade.
Unesp e Unicamp afirmaram que a organização do exame cabe à Secretaria da Educação e à Fundação Vunesp. A USP não respondeu. A Comvest, comissão da Unicamp, disse esperar que exames que não estão sob seu controle tenham o mesmo nível de segurança e controle. A Unesp informou que a Seduc responde pela inscrição dos estudantes e pela logística de aplicação, enquanto a Vunesp elabora, corrige e divulga os resultados.







