A suspensão da função “Go Live” no Brasil marcou uma nova etapa da crise enfrentada pelo Discord. Em 12 de agosto, a Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD) determinou a interrupção do recurso, apontado como de alto risco para crianças e adolescentes. A decisão veio após uma sequência de problemas envolvendo moderação automatizada, verificação de idade e segurança na plataforma.
O diretor da ANPD, Iagê Miola, afirmou que havia “uma funcionalidade específica dentro da plataforma Discord que representa um altíssimo risco para crianças e adolescentes”. A agência informou que a investigação continuaria nos meses seguintes.
Pressão das autoridades brasileiras
A medida foi tomada depois que a ANPD abriu, em 7 de agosto, um processo de fiscalização contra o Discord. A apuração apontou possíveis falhas em quatro pontos do Estatuto da Criança e do Adolescente Digital: prevenção de conteúdo sobre automutilação, verificação de idade, remoção de material irregular e comunicação de violações às autoridades.
A empresa teve 5 dias úteis para responder e poderia receber multa de até R$ 50 milhões por infração. O processo ocorreu após a Polícia Federal deflagrar, em 4 de agosto, a Operação Lívia. A investigação apura se Discord e Telegram foram usados para aliciar vítimas, principalmente meninas, e divulgar conteúdo neonazista e misógino em cinco estados.
O caso começou após a morte de uma menina de 13 anos, em 22 de julho de 2026, em Naviraí (MS). Ela teria sido pressionada por um grupo virtual a cumprir desafios de automutilação e crueldade contra animais.
A SaferNet Brasil registrou aumento de 54% nas denúncias relacionadas ao Discord: foram 264 entre janeiro e julho de 2025, contra 406 no mesmo período de 2026. A atuação da ANPD foi considerada o primeiro teste de peso do ECA Digital e a primeira ação da agência sem esperar uma ordem judicial.
Banimentos automáticos e perda de confiança
Antes da ofensiva das autoridades, usuários já enfrentavam problemas com o sistema de moderação baseado em inteligência artificial. Entre maio e julho, mais de 8 mil contas foram banidas sem revisão humana após imagens comuns serem confundidas com material relacionado a abuso infantil.
O sistema comparava arquivos com um banco de material nocivo conhecido. Padrões quadriculados presentes em tabuleiros de xadrez, planilhas, fundos transparentes e texturas de jogos acabaram associados indevidamente a esse conteúdo. Em um final de semana de julho, mais 200 contas foram bloqueadas antes que o Discord identificasse a falha e interrompesse a ferramenta.
Um dos usuários atingidos havia enviado texturas de um jogo e usava o Discord como canal oficial de comunicação da equipe. Ele ficou sem acesso ao próprio trabalho por dias. A plataforma restaurou todas as contas afetadas.
O Discord reconheceu o problema e declarou: “Esse tipo de correspondência por similaridade pode gerar falsos positivos.” A empresa também prometeu adotar salvaguardas melhores para evitar novos casos.
Verificação de idade e fornecedores
Em fevereiro, o Discord anunciou uma exigência global de verificação de idade a partir de março. O procedimento poderia envolver selfie com reconhecimento facial ou envio de documento. A proposta provocou reação negativa entre usuários, especialmente porque, em outubro de 2025, hackers invadiram a 5CA, fornecedora terceirizada de suporte do Discord, e roubaram pelo menos 70 mil documentos de identidade, incluindo passaportes e carteiras de motorista.
A empresa se recusou a pagar o resgate de US$ 3,5 milhões exigido pelo grupo responsável pelo ataque. Com a pressão, o Discord adiou a implementação global para o segundo semestre de 2026. O CTO Stanislav Vishnevskiy admitiu o erro: “Erramos, não vou fingir que não erramos”.
Em fevereiro, o Discord também encerrou a parceria com a Persona, empresa usada na verificação de idade. Pesquisadores apontaram possíveis ligações da companhia com programas de inteligência dos Estados Unidos. O código exposto da Persona indicava 269 verificações diferentes, incluindo reconhecimento facial comparado com listas de vigilância.
A Twitch, por outro lado, passou a exigir documento e selfie pela mesma empresa de novos afiliados antes do primeiro pagamento. A streamer TawnyCodeCat perguntou ao suporte se havia alternativa e recebeu a resposta de que não existia. Depois, a Twitch afirmou que a exigência atingia apenas uma “porcentagem muito pequena” dos afiliados.
O conjunto de decisões ampliou a distância entre a plataforma e parte de sua comunidade. Usado para jogos, comunicação e amizades, o Discord se tornou um espaço importante para jogadores, inclusive para públicos de nicho. Ao mesmo tempo, banimentos equivocados, mudanças na verificação de idade e a atuação de autoridades brasileiras passaram a questionar como a plataforma protege seus usuários e administra os dados pessoais deles.







