Michel de Montaigne não encontrou uma explicação racional para a amizade que teve com Étienne de La Boétie. Ao ser questionado sobre o motivo de amar o amigo, escreveu: “porque era ele, porque era eu”. A resposta se tornou uma das formulações mais conhecidas sobre amizade, mas também revela a dificuldade de transformar um vínculo específico em uma justificativa geral.
Montaigne nasceu em 1533, no castelo da família, perto de Bordeaux, na França. Foi magistrado, prefeito de Bordeaux e viveu durante um período marcado por guerras religiosas. Sua principal contribuição à literatura foi a criação do ensaio, gênero associado à tentativa de pensar por escrito, sem a obrigação de chegar a uma conclusão definitiva.
Ele conheceu La Boétie em 1558. A amizade terminou poucos anos depois, com a morte do amigo, em 1563. Os Ensaios foram escritos e reescritos ao longo da vida de Montaigne, e são interpretados por estudiosos como uma forma de preservar a memória daquela relação.
Uma resposta que recusa explicações
No capítulo “Da amizade”, Montaigne diferencia os vínculos baseados em circunstâncias ou conveniências da relação que viveu com La Boétie. Para descrever essa experiência, afirma que as duas almas se uniram de maneira tão profunda que já não seria possível localizar o ponto exato dessa união.
A força da passagem está justamente na recusa de apresentar uma lista de motivos. Montaigne não diz que amava o amigo por sua inteligência, por interesses compartilhados ou por qualquer atributo que pudesse ser encontrado em outra pessoa. A resposta preserva a singularidade dos dois envolvidos: não se trata de um modelo aplicável a qualquer relação, mas daquele encontro específico.
A construção da frase também passou por mudanças. As duas orações foram acrescentadas em momentos diferentes no chamado Exemplar de Bordeaux, volume em que Montaigne registrava correções manuscritas, em adição posterior a 1588. Quando reunidas, elas formam um alexandrino. O processo indica que o autor continuou trabalhando na passagem anos depois da morte do amigo e encontrou uma solução sonora quando não havia uma explicação argumentativa.
Uma amizade apresentada como rara
A passagem costuma ser usada para celebrar a ideia de uma pessoa única. No entanto, Montaigne descreve esse tipo de vínculo como algo raro e diferente das relações comuns. Ele não apresenta uma fórmula para encontrar uma amizade assim nem afirma que sentimentos intensos garantem reciprocidade.
Também não há, nessa visão, um conjunto prévio de requisitos, porque a existência de critérios permitiria substituir aquela pessoa por outra com as mesmas características. A relação mencionada é determinada por seus participantes e não por uma categoria geral. Além disso, durou cerca de quatro anos, enquanto a obra de Montaigne continuou convivendo com a ausência do amigo.
O trecho está no livro I dos Ensaios, no capítulo “Da amizade”. A numeração muda conforme a edição: aparece como capítulo 28 em muitas versões modernas e como 27 na edição de 1595, preparada por Marie de Gournay depois da morte do autor. Por isso, o título do capítulo é uma referência mais segura do que o número isolado.
A reflexão permanece ligada a uma dificuldade presente nas relações atuais: explicar por que determinada pessoa se torna indispensável. Em vez de reduzir a escolha à compatibilidade entre atributos, Montaigne aponta para aquilo que não pode ser convertido em uma lista. Sua resposta não resolve a pergunta; registra que, em alguns vínculos, a explicação não alcança a experiência.







