Piracicaba, Quarta-feira, 9 de setembro de 2026
Tecnologia

Debate sobre dados e autoria envolve suposta solução da OpenAI para Navier-Stokes

Matemáticos contestam a origem e a rapidez de um resultado da OpenAI sobre um dos Problemas do Milênio.

Debate sobre dados e autoria envolve suposta solução da OpenAI para Navier-Stokes
Foto: Roman Samborskyi/Shutterstock

A possível solução apresentada pela OpenAI para uma questão ligada às equações de Navier-Stokes passou a ser questionada por matemáticos que investigavam uma estratégia semelhante. A discussão envolve a velocidade do resultado, o uso de dados em ferramentas da empresa e a participação de pesquisadores externos.

Tristan Buckmaster, da Universidade de Nova York (EUA), afirmou que funcionários da OpenAI o questionaram sobre sua pesquisa durante uma reunião em 6 de setembro. Ele relatou ter ouvido: “Por que você arruinaria sua carreira?”. O matemático disse suspeitar que a empresa possa ter se beneficiado de estudos conduzidos por ele e Levent Alpöge, da Anthropic.

Como a OpenAI descreve o resultado

As equações de Navier-Stokes foram formuladas no início do século XIX por Claude-Louis Navier e George Gabriel Stokes. Elas representam matematicamente o movimento de fluidos, como o ar deslocado por uma hélice e o sangue nas artérias.

O desafio é saber se as equações sempre geram respostas finitas. Outra possibilidade é o surgimento de uma singularidade, chamada de “blowup”, na qual a velocidade ou a pressão de um fluido poderia crescer sem limite em um ponto específico do espaço e do tempo.

A questão integra os sete Problemas do Milênio do Clay Mathematics Institute. Uma solução correta dá direito a US$ 1 milhão (cerca de R$ 5,4 milhões). Para avançar na investigação, a OpenAI aplicou forcing, uma perturbação controlada em um fluido simulado.

A empresa informou ter colocado aproximadamente dez mil agentes de IA na tarefa por cerca de 88 horas. No início, cerca de 100 agentes analisaram as equações de Euler, relacionadas às de Navier-Stokes, mas sem considerar a viscosidade. Depois de aproximadamente 50 horas, eles identificaram blowups nesse modelo e passaram a concentrar o trabalho em Navier-Stokes.

Segundo a OpenAI, o resultado envolve um vórtice que fica cada vez mais comprimido, alongado e fino. Em termos matemáticos, isso faria o fluido girar em direção ao infinito. A prova foi enviada ao Lean, programa que verifica etapas de argumentos matemáticos.

A empresa também afirmou que os agentes trocaram 2,7 milhões de mensagens e geraram aproximadamente 130 bilhões de tokens. Em uma coletiva realizada na terça-feira (8), representantes disseram que uma tarefa parecida feita para um cliente teria custado US$ 15 milhões (cerca de R$ 81 milhões).

Divergências sobre a origem da estratégia

Buckmaster afirmou que ele e Alpöge encontraram resultados de blowup nas equações de Euler com forcing suave em 15 de agosto. Em 3 de setembro, segundo o matemático, ele soube que a OpenAI conhecia o trabalho da dupla e havia seguido uma linha semelhante.

A estratégia também havia sido desenvolvida por Diego Córdoba, do Instituto de Ciências Matemáticas de Madri, e Luis Martínez-Zoroa, da Universidade CUNEF, na Espanha. Buckmaster disse que poucos pesquisadores trabalhavam com essa abordagem.

A OpenAI apresentou outra cronologia. De acordo com a empresa, a pesquisa sobre Navier-Stokes começou em 1º de setembro, após a equipe ouvir “rumores sobre outras resoluções de problemas do milênio”. Sam Altman, CEO da companhia, reconheceu que a OpenAI soube do trabalho de Buckmaster e Alpöge antes de divulgar seu próprio resultado. Ele escreveu que as abordagens “parecem diferentes”, avaliação contestada por Buckmaster.

A empresa citou os dois matemáticos em sua declaração, reconheceu que eles haviam resolvido de forma independente o problema de Euler com forcing e ofereceu a possibilidade de uma publicação conjunta.

Questionamentos sobre o Codex

Buckmaster disse que usava o Codex, assistente de programação da OpenAI, durante a pesquisa e inseria rascunhos do trabalho desenvolvido com Alpöge. Ele perguntou à empresa se as sessões poderiam ter sido acessadas ou usadas no treinamento de modelos, mas afirmou não ter recebido resposta sobre esse ponto.

A OpenAI declarou que seus funcionários e agentes não acessaram o trabalho da dupla por nenhum meio antes da divulgação pública. A companhia, porém, disse não poder excluir a possibilidade de dados anonimizados obtidos pelo uso de seus produtos terem contribuído para aprimorar os modelos.

Buckmaster também acusou Sébastien Bubeck, responsável pela pesquisa matemática da OpenAI, de tentar retirar Alpöge da autoria de um artigo. Bubeck negou e classificou as alegações como “falsas e inflamatórias”. Ele afirmou que a empresa não usou prompts nem provas dos pesquisadores para orientar seus modelos.

Buckmaster disse não ter visto a prova da OpenAI e não saber como o modelo chegou ao resultado ou se utilizou dados da dupla. Por isso, pediu uma investigação independente.

Revisão ainda não terminou

Diego Córdoba afirmou ter ficado surpreso com a rapidez do resultado. Terence Tao, professor da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA), disse que um rumor sobre pesquisas em andamento pode levar a um esforço amplo de IA antes da conclusão do trabalho original.

Para Tao, esse tipo de incentivo pode fazer pesquisadores evitarem o compartilhamento de ideias promissoras, afetando a tradição de ciência aberta. A prova da OpenAI ainda precisa passar por revisão formal por pares. O Clay Mathematics Institute não confirmou nem rejeitou oficialmente a solução.

Texto produzido pela Redação Aprende em Foco com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

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